Quando falamos de formação profissional creio que não possamos nos limitar apenas a aquele período de formação superior. Temos que voltar à nossa adolescência e mencionar a fascinação que a área de ciências e de engenharia desperta nos jovens. Frequentei o ensino médio no Colégio Naval, em Angra dos Reis, onde as disciplinas de matemática, física e química tinham um forte apelo. No último ano do colégio tive dois professores que me influenciaram bastante, o Prof. Armando, que lecionava Álgebra, e o Prof. Délio que lecionava Mecânica e Dinâmica. Foi daquela época meu interesse inicial pela Física e, em particular, pela Ótica, embora não imaginasse que anos mais tarde a Fotônica e suas aplicações iriam se tornar meu principal campo de investigação. A motivação pela carreira militar pouco me despertou e ao finalizar o terceiro ano prestei vestibular para o curso de Física na Unicamp, tendo entrado no bacharelado em 1979. Foi uma mudança e tanto do ponto de vista de novos aprendizados e convívio em um ambiente plural e diverso. Lembro-me que não havia uma orientação acadêmica muito próxima do estudante, como a conhecemos nos cursos atuais. Embora houvesse uma grade a ser seguida, frequentávamos muitas disciplinas ao sabor de nosso interesse e motivação, o quê, na verdade, nos proporcionava uma grande liberdade e flexibilidade. O Instituto de Física Gleb Wataghin possuía vários professores de renome, como César Lattes, Rogério Cézar de Cerqueira Leite e José Ellis Ripper Filho, entre outros. Naquela época o Prof. Ripper já fazia uma veemente defesa da ligação entre a Academia e o setor produtivo, em particular na área de Microeletrônica. Diga-se de passagem, o Prof. Ripper foi um dos fundadores da AsGa Microeletrônica e um dos pioneiros na criação de spin-offs de alta tecnologia no Brasil. Mas foi no mestrado que meu interesse pela Ótica e pelo Eletromagnetismo se tornou mais forte. Findo o mestrado em um tópico de caracterização ótica de filmes finos, tive a oportunidade de ser contratado, em 1987, como pesquisador no grupo de sensores óticos do Instituto de Estudos Avançados (IEaV) do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) em São José dos Campos, que tinha como foco o desenvolvimento de um giroscópio ótico para aplicação em aviões e foguetes. Foi lá que tive o primeiro contato com as fibras óticas e sua aplicação, não apenas em sensoriamento, mas em telecomunicações. Vale aqui lembrar o importante papel do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) da Telebras em Campinas, que abrigava diversos grupos de pesquisa e laboratórios dedicados ao desenvolvimento de dispositivos optoeletrônicos e em fibra ótica. Naquela época já se iniciavam as primeiras implantações de enlaces óticos e se consolidava o papel fundamental das comunicações óticas na infraestrutura de telecom no país e no mundo. Mas foi nos anos seguintes que o meu interesse em telecom se fortaleceu. Desejando fazer o doutorado no exterior, obtive uma bolsa do Serviço Acadêmico Alemão (DAAD) para realizar, inicialmente, um doutorado sanduíche no Instituto de Altas Frequências na Universidade Técnica de Braunschweig. O Prof. Hans-Georg Unger, pioneiro no desenvolvimento das comunicações óticas em nível europeu, era o diretor do Instituto, cujo grupo dedicava-se ao estudo e desenvolvimento de métodos e ferramentas para o cálculo de propagação de ondas em estruturas fotônicas. O Instituto abrigava também outros grupos de pesquisa com foco em Microondas e Optoeletrônica. No final, meu interesse se voltou mais à fabricação e caracterização de guias de onda em substratos semicondutores, estruturas básicas para a fabricação de circuitos fotônicos, cujo desenvolvimento e crescimento estamos vendo ocorrer com maior frequência nos dias de hoje. E foi nesse tema que acabei realizando o doutorado completo na TU Braunschweig. Voltando ao Brasil no final de 1994, já sem o vínculo com o CTA, fiquei envolvido por alguns meses com um projeto de um dispositivo sensor na ASGA Microeleletrônica. Embora breve, o período me fêz admirar o esforço e a dedicação de seus fundadores em transferir conhecimentos gerados na academia para a indústria. Contudo, uma oferta para trabalhar na empresa Furukawa Industrial me trouxe a Curitiba em 1995. E foi nessa empresa que participei de forma mais efetiva em projetos na área de telecom, auxiliando na implantação de diversas redes óticas fibra-coaxial para transmissão de sinais banda larga, particularmente TV a Cabo em regiões metropolitanas. Finalmente, após quase seis anos na empresa, e com uma crise mundial assolando o mercado, decidi retornar ao meio acadêmico em 2001 a partir de um concurso público no então Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (CEFET-PR), hoje conhecido como Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). E assim, lá se vão mais de trinta anos trabalhando em telecom, entre atividades de ensino, orientação, pesquisa, desenvolvimento e gestão.
Foram diferentes momentos, cada qual marcado por suas peculiaridades. Nossa graduação e, em particular, nossa pós-graduação seguem o modelo norte-americano, com a necessidade de frequência às disciplinas e obtenção de créditos. O aluno é basicamente tutelado ao longo do curso. Por um lado isto é necessário e salutar, mas por outro penso que isto lhes tolhe a iniciativa, deixando-os dependentes do sistema. No modelo alemão e europeu, os estudantes aprendem a ser mais independentes e auto-suficientes. Os períodos de aulas são menores, exigindo mais atividades e dedicação dos alunos fora de classe. Isto os obriga a ter mais disciplina e foco. Em 2007, durante o estágio pós-doutoral na Universidade de Sydney, não me envolvi com atividades de ensino, embora tenha notado que o modelo australiano siga os contornos do modelo europeu (britânico) e as mesmas premissas. Entretanto, uma característica que me chama a atenção em todas essas instituições diz respeito ao aspecto meritocrático e à gestão de sua infraestrutura. A questão da gestão é particularmente importante, pois o apoio às atividades de ensino, manutenção de laboratórios e investimentos na pós-graduação impacta de forma muito positiva o desempenho docente e o tempo dedicado por estes à preparação de aulas e orientação de estudantes. No Brasil conhecemos bem essas deficiências, difíceis de serem corrigidas sem maior apoio e recursos. Ao mesmo tempo, já é amplamente reconhecida a qualidade dos alunos formados em nossas universidades públicas, fato este comprovado pelas diversas oportunidades oferecidas aos mesmos por empresas e grupos de pesquisa no exterior. E isto é mérito nosso, embora fique preocupado com o fato de esta força de trabalho especializada não poder ser melhor aproveitada no próprio país.
As sociedades científicas são uma importante extensão do que fazemos na academia. Elas nos permitem uma interação maior com colegas e pesquisadores que trabalham em áreas afins, partilhando experiências e conhecimentos. Sobretudo, através de seus encontros, em uma interação extremamente benéfica, elas permitem que um estudante tenha a oportunidade de se inserir no universo da pesquisa e da busca pelo conhecimento, interagindo desde cedo com pessoas mais experientes. É uma oportunidade inigualável para aqueles que desejam se inserir no meio acadêmico e de pesquisa.
Atuando na área de telecom e em uma universidade pública, seria impossível não estar vinculado à SBrT aqui no Brasil. Convidado pela Professora Marta Rettelbusch de Bastos, fiquei muito feliz em participar da diretoria da Sociedade, inicialmente no período de 2012 a 2013 sob sua presidência e, em seguida, no período de 2014 a 2015 sob a presidência do Prof. Paulo Cardieri. Com sua larga experiência em gestão, a Profa. Marta liderou a reorganização da Sociedade, a começar pelo sistema de ampliação e manutenção de sócios e cobrança de anuidades, deixando-a mais robusta e mais pró-ativa. Também na diretoria conseguimos consolidar uma ação de apoio à participação de alunos de iniciação científica e tecnológica em nossos simpósios, com uma ajuda financeira concedida a aqueles que tivessem trabalhos aceitos.
Minha primeira participação foi no simpósio de Fortaleza em 2001, com um trabalho sobre simulação de enlaces de fibra ótica afetados pelo mecanismo de dispersão do modo de polarização. Havia saído recentemente da empresa Furukawa e estava em busca de novos projetos e colaborações. Mas creio que a contribuição da qual mais me orgulho tenha sido a organização do Simpósio Brasileiro de Telecomunicações em Curitiba, em 2011. Com auxílio dos professores Richard Demo Souza, Marcelo Eduardo Pellenz e Evelio Martín García Fernández na Comissão Técnica, organizamos um evento que, creio, resgatou a autoestima da Sociedade após o problemático evento do ano anterior, ocorrido em Manaus. Não só conseguimos organizar um simpósio de elevado nível técnico, mas com elevada participação e um programa social que deixou boas lembranças em todos.
A maior dificuldade de nossas sociedades científicas e acadêmicas diz respeito à atração e manutenção de nossos associados. Em particular, a atração de profissionais atuantes em empresas deveria ser um foco de ações de sucessivas diretorias. Estimular a interação entre membros da academia e do setor produtivo é um constante desafio. Naturalmente, é necessário que haja atratividade, que precisa ser estimulada. Nesse quesito, penso que ações de divulgação, de oferta de palestras e treinamentos possam contribuir para ampliar tal interação. Com a utilização cada vez maior de plataformas de comunicação, de forma síncrona e assíncrona, temos à disposição uma ferramenta maravilhosa para a interação e discussão de problemas. Podemos agora agendar eventos e interagir em qualquer hora e lugar. O arcabouço de conhecimentos gerado e acumulado pelos membros da Sociedade é um valioso patrimônio que não pode ficar restrito ao ambiente acadêmico. E essas ferramentas podem ser usadas para convidar palestrantes, inclusive do exterior, com os quais a comunidade e pessoas ligadas ao setor produtivo possam interagir.
Minha interação entre o mundo acadêmico e o setor produtivo teve início no doutorado. A Alemanha é exemplo de um país que investe fortemente em inovação. Muito do que se produz nas universidades e institutos de pesquisa é realizado em colaboração com a indústria. Muitos projetos somente são concretizados se houver parceria entre empresas e os institutos de pesquisa e universidades, com aporte de contrapartida. No Brasil esse nível de interação ainda é pequeno, embora acredite que não há empresário que não acredite na necessidade de maiores investimentos em atualização tecnológica e fomento à inovação. Vemos agora ferramentas de inteligência artificial e aprendizado de máquina serem empregados nos mais diversos setores. E para isso há necessidade de conhecimento especializado. Nesse aspecto, nossa comunidade que trabalha em processamento de sinais tem muito a oferecer. Estamos vivendo momentos de grandes mudanças no Brasil e no mundo, mas temos que conviver no setor empresarial com imediatismos e questões de sobrevivência. É um aspecto cultural, mas também compreensível. Contudo há bons exemplos de empresas, nas quais a pesquisa e inovação são parte integrante de seu planejamento estratégico e de longo prazo. A ciência brasileira tem gerado conhecimentos e se mostrado à altura dos desafios. Veja-se agora, nesse período trágico de pandemia, em que diversos colegas, em regime de colaboração, conseguiram desenvolver produtos e soluções tecnológicas para combater o novo Coronavírus, desde máscaras de proteção a ventiladores pulmonares. E tais conhecimentos e produtos tem sido absorvidos por algumas empresas brasileiras. Por que não conseguimos fazer isto também em outros setores? Precisamos de uma pandemia para descobrir que essa interação é benéfica e necessária?
Temos sempre referências próximas e distantes. As próximas são todos aqueles, em particular professores, com quem convivemos e nos estimularam com seus conhecimentos, entusiasmo e motivação ao longo de nosso percurso. A escola é um ambiente fundamental para o crescimento e desenvolvimento de todos nós. Na Austrália ouvi dizer que a escola precisa ser um ambiente divertido, no qual os alunos tem prazer em aprender. Nesse sentido, minhas melhores referências são aqueles que me ensinaram o gosto e o prazer pelo conhecimento. Em particular, os professores Armando e Délio no Ensino Médio, exemplos de dedicação e estímulo. Na área de pesquisa, durante o doutorado, não posso deixar de lembrar de meu orientador, Prof. Henning Fouckhardt que, ainda no início de sua carreira acadêmica, me apoiou na conclusão do doutorado com seu entusiasmo e energia na área de Fotônica. No Brasil, menciono o Prof. Marcelo Sampaio de Alencar, sobretudo por sua fabulosa memória e sua dedicação na divulgação da importância e história das Telecomunicações e da própria Sociedade. Nossa comunidade, embora relativamente pequena, possui agora jovens, competentes e entusiasmados docentes e pesquisadores. Esses jovens acabam também se tornando uma referência, pois sabemos que o trabalho ao qual nos dedicamos estará em boas mãos.
Brinco que a única coisa que aprendi durante a pandemia é que estava em quarentena há mais de vinte anos e não sabia (risos). O fato de trabalharmos um grande número de horas em frente a um computador todos os dias não alterou muito a rotina nesses tempos de confinamento, com exceção, naturalmente, das aulas presenciais. Algo que já havíamos começado a fazer, como as "lives" e interações assíncronas, foram apenas aceleradas. Isto não vai nos tornar mais distantes. A humanidade vai sobreviver à pandemia. É preciso encarar o momento com certa resignação, mas também com esperança.
Meus hobbies não diferem daqueles de muitos colegas. Gosto de fazer caminhadas, ir a concertos, assistir filmes e de leituras. Em Curitiba gosto muito de visitar o Museu Oscar Niemeyer (MON), que sempre tem boas atrações e exposições. Os livros também são sempre bons companheiros. Recentemente, li "Portugal e o Segredo de Colombo", de Manuel da Silva Rosa, uma fascinante narrativa sobre a verdadeira identidade de Cristovão Colombo, cuja biografia é muito controversa e repleta de contradições. Também recomendo a leitura do inquietante "21 Lições para o Século XXI", do Yuval Harari, em que procura mostrar e nos alertar sobre o profundo impacto que as novas tecnologias terão sobre o desenvolvimento das sociedades humanas. A biografia de Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson, também é muito estimulante aos mostrar em detalhes as muitas facetas desse gênio.
O conhecimento nas áreas técnicas tem avançado rapidamente de forma que precisamos constantemente acompanhar os avanços e nos mantermos atualizados. A abordagem e solução de muitos problemas requer, atualmente, conhecimentos de várias disciplinas, sendo desafiador para um única pessoa abordar diversos assuntos com o necessário grau de profundidade. Nesse sentido, o trabalho em redes de colaboração, onde cada pesquisador contribui com seu conhecimento e expertise para resolver um problema mais complexo me parece ser um bom conselho ao mais jovens. Mas como em qualquer atividade, há sempre necessidade de trabalho árduo e perseverança para alcançar os resultados. O Brasil, apesar de todas as suas dificuldades e problemas, tem evoluído no fomento e estímulo às atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nesse sentido, é necessário cultivar um espírito mais empreendedor e comprometido com o alcance de soluções, sem nos deixar abater pelas dificuldades momentâneas.
Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Rua Marquês de São Vicente, 225 — Rio de Janeiro, RJ.