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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. Bartolomeu Uchôa-Filho

É Professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica e Eletrônica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde trabalha desde fevereiro de 2000. Possui graduação pela UFPE (1989), mestrado pela UNICAMP (1992) e doutorado pela University of Notre Dame, U.S.A. (1996), todos em Engenharia Elétrica. De 1997 a 1999, realizou Pós-Doutorado na UNICAMP. De março de 2009 a fevereiro de 2010, realizou pós-doutorado na School of Electrical & Information Engineering, University of Sydney, Austrália. De abril a junho de 2017, realizou pós-doutorado (estágio sênior) na França, atuando conjuntamente no Laboratoire des Signaux et Systèmes (L2S), Centrale-Supélec, e no Laboratoire de Traitement du Signal et Architectures Électroniques (LAETITIA), Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM). É Senior Member do IEEE e Sócio Sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT). É membro da Eta Kappa Nu Honor Society (U.S.A.), Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT), IEEE Information Theory Society, IEEE Communications Society e ARC Communications Research Network (ACoRN, Austrália). Desde 2001 é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, e coordenou 4 projetos de pesquisa do Edital Universal do CNPq e um projeto de Pesquisador Visitante Especial (PVE) do CNPq (2014-2019), em colaboração com instituição francesa. De 2003 a 2004, serviu como Editor-Chefe da Revista da Sociedade Brasileira de Telecomunicações. De 2011 a 2014 foi Editor Associado do "International Journal of Information and Coding Theory (IJICoT), Inderscinece Publisher", e Editor Associado de Teoria de Informação e Codificação do Journal of Communication and Information Systems (JCIS). De 2016 a 2018, atuou como Editor Associado dos periódicos "Physical Communication (Elsevier)" e "Digital Signal Processing (Elsevier)". Em 2020/2021, atua como Editor do tópico "Index Modulation for 6G Communications", do periódico "Frontiers in Communications and Networks". Foi Coordenador Técnico do XXVII Simpósio Brasileiro de Telecomunicações (SBrT2009) e "Co-Chair of the Track Information Theory and Coding of the 2014 SBrT/IEEE International Telecommunications Symposium (ITS2014)". Foi "Track Chair of Fundamentals and PHY" do The 2019 Annual IEEE International Symposium on Personal, Indoor and Mobile Radio Communications (IEEE PIMRC 2019) e Coordenador Geral do XXXVIII Simpósio Brasileiro de Telecomunicações e Processamento de Sinais (SBrT2020). Foi Membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (mandatos 2010/2014 e 2016/2018). Foi Coordenador de Pesquisa do Centro Tecnológico/UFSC em 2018 e foi Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica (PPGEEL) (mandato 2018-2020). Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Sistemas de Telecomunicações, atuando principalmente em aplicações da teoria de codificação e de informação.

INSTITUIÇÃO / CARGO
Prof. ITA
PUBLICADA
01 DEZ 2021

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Que eu faria Engenharia ou algum curso das Exatas eu já tinha em mente desde criança, por gostar de Matemática mais do que das outras matérias da escola. Mas a minha escolha pela Engenharia Elétrica ocorreu somente depois de ter visitado a usina hidroelétrica de Paulo Afonso com minha família. Eu tinha uns 11 anos de idade e fiquei fascinado com tudo aquilo. A partir dali minha decisão pelo curso que faria já estava tomada. Um ano antes de iniciar Engenharia Elétrica na UFPE, fiz um curso técnico de Informática e Processamento de Dados na Universidade Católica de Pernambuco e logo em seguida comecei a trabalhar como programador. Comecei a tomar gosto pelos computadores e isso me guiou para a modalidade de Eletrônica na UFPE. Naquela época só havia vestibular para Engenharia Elétrica. No quinto período optava-se por Eletrônica ou Potência. Mais adiante fiz a disciplina de Princípios de Comunicação, com o Prof. Valdemar Cardoso da Rocha Jr. Com todo o seu conhecimento, didática e carisma, o Prof. Valdemar já me fizera esquecer um pouco de Paulo Afonso. Meu estágio, eu fiz na Embratel, para o que eu pedi demissão do meu emprego. Na sequência, cursei Teoria da Informação e Codificação com a Profa. Marcia Mahon Campello de Souza e Processamento Digital de Sinais com o seu marido, Prof. Ricardo Menezes Campello de Souza. Que professores! Que universo fascinante! Todo aquele formalismo matemático. Quanta simetria! Quanta beleza! E esses três professores faziam pesquisa nessas áreas. Eu tinha que seguir aquele caminho também.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

Depois de me formar na UFPE, eu me inscrevi para mestrado na UNICAMP. Antes mesmo de o resultado da seleção sair, viajei para Campinas para conhecer a universidade e demonstrar todo o meu interesse. Lá, fiquei sabendo que já tinha sido aceito e que trabalharia com o Prof. Reginaldo Palazzo Jr. Alguns colegas meus que já estavam por lá me disseram que eu tinha tido muita sorte. O Palazzo era um dos orientadores mais disputados entre os bons alunos, pelo altíssimo nível da sua pesquisa e pela forma atenciosa, gentil, respeitosa e amigável com que tratava seus alunos. Foi exatamente nessas condições e sob esses cuidados que fiz o meu mestrado. O Palazzo me fez gostar cada vez mais da pesquisa científica e me encheu de autoconfiança, a ponto de eu querer tentar doutorado fora do país. Fui fazer doutorado na Universidade de Notre Dame, com outro “papa” da área de Códigos Corretores de Erros. Lá ainda convivi durante um ano com o Palazzo, por conta do seu sabático na mesma universidade. Depois do meu doutorado, fiz pós-doutorado por dois anos e meio na UNICAMP, mais uma vez sob a supervisão do Prof. Palazzo. Em 2000, eu me tornei professor na UFSC, onde trabalho até hoje.

3. Quais suas referências profissionais?

Os Profs. Valdemar, Marcia e Ricardo, da UFPE, que plantaram em mim a semente do saber, me apresentando o fascinante universo da Teoria das Comunicações, e o Prof. Palazzo, que definitivamente me moldou e me ensinou como fazer pesquisa de forma ética e, principalmente, como tratar os alunos. Hoje quando me sento à mesa para conversar com meus orientandos, eu me lembro de como o Palazzo conversava comigo.

4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

A participação do pesquisador em sociedades científicas é importante por diversos motivos. Essas sociedades promovem eventos científicos, palestras (distinguished lectures), atividades diversas que motivam o engajamento de alunos, o que é essencial. Ao renovar a sua anuidade, o pesquisador contribui para a manutenção dessas atividades de difusão do conhecimento. Além disso, há um retorno financeiro visto que o membro recebe descontos nos eventos da sociedade e em outros produtos, que muitas vezes superam o valor da anuidade. Também muito importante é poder fazer parte de um grupo de pessoas com interesses semelhantes aos seus, com quem você possa fazer contato e formar parcerias. É fundamental contribuir para que as sociedades científicas se desenvolvam. Da SBrT eu sou membro há mais ou menos 25 anos. Nesse período, pelo que posso me lembrar, eu só não participei do Simpósio quando não pude: no nascimento da minha filha em 2002 e quando estava afastado do país em 2009. Para mim, participar dos Simpósios da SBrT é quase como ir a uma confraternização com amigos, com o bônus de assistir a várias apresentações de trabalhos interessantes.

5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria

                  de nos contar?

Durante o meu mestrado na UNICAMP, eu participei do SBrT’91, que ocorreu ali do lado na Escola Politécnica da USP. Confesso, porém, que tenho muito pouca lembrança dessa minha participação. Eu considero que minha primeira participação foi mesmo no SBrT’97, em Recife. Eu tinha terminado o doutorado no ano anterior e assim pude apresentar trabalho. Eu acho que o fato de o evento ter se realizado na minha cidade natal e ter sido organizado por aqueles que 10 anos antes me fizeram gostar da área tornou este evento especial para mim. Além disso, eu me lembro que o evento foi realmente muito bem-organizado.

6. Como foi a experiência de realizar um Simpósio Brasileiro de Telecomunicações?

Foi muito enriquecedora. Eu aprendi muita coisa com a organização do SBrT’20. Sabemos que foi um período difícil para todos por causa da pandemia da COVID-19. No nosso caso, em particular, estávamos com tudo pronto para o evento presencial quando ela nos pegou de surpresa e tivemos que nos adaptar ao formato virtual. Além disso, eu estava como coordenador da pós-graduação na UFSC e fiquei sobrecarregado. Mas o que vale é que eu não estava só. Graças à contribuição de vários colegas, em especial o Prof. Eduardo Luiz Ortiz Batista (coordenador-geral), Prof. Márcio Holsbach Costa e Prof. Richard Demo Souza (coordenadores na fase inicial da organização) e todos os membros da comissão organizadora, além do apoio da Sociedade representada pelo Prof. Cristiano Magalhães Panazio, o evento foi muito bem-sucedido considerando as restrições.

7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

Neste momento eu estou trabalhando bem, tanto na pesquisa quanto nas minhas aulas. A gente acaba se adaptando. E como a pesquisa que faço é teórica, não precisei ir à UFSC para usar um equipamento específico ou realizar um experimento. Contudo, nos primeiros meses da pandemia eu senti muito o impacto do distanciamento social e do medo da doença. Cheguei a ter uma perda considerável de peso nesse período. Eu costumava usar pouco o slide e muito mais o quadro nas minhas aulas. Ter que preparar o material, gravar videoaulas e dar aulas síncronas foi um grande desafio, como foi para a maioria das pessoas.

8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

Os hobbies que tenho são bastante comuns como ler, escutar músicas, assistir a filmes, tocar um pouco de violão e andar de bicicleta aos domingos (este bem atenuado durante a pandemia). Gostava muito de jogar futebol e tênis, mas tive que parar por causa de problemas no quadril. Também gosto muito de viajar com a família. A última viagem que fizemos foi justamente dois meses antes da pandemia, quando passamos duas semanas na Europa e outras duas no Japão. Apesar do desgaste físico e do alto custo, a viagem foi renovadora. Mas eu vibro muito com viagens curtas também. Aqui gosto muito de viajar para as Serras Catarinenses. Gosto muito de Urubici. Eu penso que quando me aposentar vou morar num sítio em alguma serra. Mas quero ter a cidade por perto, “just in case”. Durante a pandemia eu me interessei por fazer pão de fermentação natural. Adquiri o know-how pela internet mesmo. Preparei um roteiro com todo o procedimento e uma lista dos utensílios necessários. Há um ano não compramos pão aqui em casa. E agora estou ampliando os conhecimentos para a elaboração de pizzas. Embora eu já esteja equipado com pedra refratária e pá, a minha técnica ainda não está plenamente desenvolvida.

9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

Ainda bem que sua pergunta foi mais específica. Tendo eu decidido aos 11 anos de idade o curso que queria fazer, me dói ver adolescentes sem ideia de que profissão seguir. Neste caso, eu os aconselho a ler sobre as profissões e conversar com diferentes profissionais, ir de porta em porta mesmo. Ou até buscar alguma ajuda com psicólogo para uma orientação profissional. É fundamental ter convicção da profissão que quer seguir, mesmo que venha a mudar de ideia alguns anos depois. Feita a escolha e estando certo dela, tudo fica mais fácil, mas nem tanto ... O aconselhamento que dou é dedicação plena para alcançar os seus objetivos profissionais. Tem que estudar muito, além de focar e fazer coisas que sejam ao mesmo tempo prazerosas e levem a esses objetivos. Haverá ventos contrários. Mas é importante manter o foco e não desistir. Eu posso falar um pouco do meu foco para a realização do doutorado nos Estados Unidos. No segundo ano do mestrado fui morar na Moradia da UNICAMP, que é gratuita. Fugi da zona de conforto, pois passei a dividir um único quarto de dois beliches com três alunos bem estranhos. Eu procurei encarar aquilo como uma experiência interessante que me faria amadurecer. Mas o fiz mesmo para poder canalizar os meus recursos financeiros para pagar cursos de inglês, preparatórios para TOEFL e GRE e inscrições nas universidades. Não media esforços. Eu me dedicava ao mestrado de dia e a esses estudos à noite. Deu certo e eu consegui iniciar o doutorado. Exatamente na metade da caminhada, eu me divorciei da minha primeira esposa. Foi um período difícil, no qual tive muitos motivos para desistir. Mas mantive o foco nos meus objetivos. Ela voltou para o Brasil e eu continuei, sempre com a faca nos dentes. Não desista. Persevere.

10. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

Para os próximos 10 anos eu não poderia deixar de citar os sistemas 6G e tudo o que ele envolve: sensores por toda parte, de todos os tamanhos e com funções diversas, comunicação entre eles e com centros de dados, inteligência artificial e tomada de decisão, tudo com pouca ou nenhuma intervenção humana. Para quem quer trabalhar com nanotecnologia haverá muito o que desenvolver, sobretudo com miniaturização de sensores. O controle autônomo e a inteligência artificial estarão sem dúvida em alta. Muitos desafios também na nossa área de telecomunicações, com a busca de novos paradigmas para satisfazer os diversos requisitos impostos por esses sistemas. Enfim, quem quiser trabalhar com uma dessas áreas encontrará certamente um caminho promissor no futuro próximo.

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