Sociedade Brasileira de Telecomunicações · desde 1983 PT · ENsecretaria@sbrt.org.br
SBrT
Sociedade Brasileira
de Telecomunicações
Início · Entrevistas · Prof. Hélio Waldman
Entrevista · Memória da SBrT

Prof. Hélio Waldman

Possui graduação em Engenharia de Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1966), mestrado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1968) e doutorado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1971). Atualmente é professor titular aposentado da Fundação Universidade Federal do ABC e da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: redes óticas; comunicações óticas; alocação de rota, espectro e formato de modulação em redes óticas elásticas; gerenciamento do espectro ótico em redes de fibras. Foi o primeiro Pró-Reitor de Pesquisa da Unicamp nos anos 1980, e da UFABC desde a sua fundação até 2009. Foi Reitor da UFABC de 2010 a 2014, quando foi aposentado compulsoriamente ao completar 70 anos de idade. Atualmente, coordena um projeto temático da Fapesp sobre novas estratégias para enfrentar a ameaça de exaustão da capacidade, no âmbito de um programa voltado para pesquisas associadas à Internet do futuro; e colabora com programas de pós-graduação na Unicamp e na UFABC.

INSTITUIÇÃO / CARGO
PUBLICADA
01 ABR 2020

1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

Entendo que a primeira escolha que resultou na minha formação profissional ocorreu na passagem do antigo curso ginasial (correspondente às atuais quinta à oitava séries do curso fundamental) para o nível secundário, que na época (1959) era oferecido em duas versões de curso: Científico e Clássico. Escolhi o curso Científico, por sentir mais afinidade com o que hoje é conhecido como STEM (do inglês "Science, Technology, Engineering and Mathematics" ), embora também me interessasse por temáticas ligadas à História e à Literatura, que por sua vez me motivavam ao aprendizado de línguas estrangeiras, notadamente o inglês e o francês.

Durante o curso científico, estava determinado a cursar o nível superior logo em seguida na USP, mas minhas preferências oscilavam principalmente entre a Física e a Matemática, com a Engenharia despontando como uma alternativa interessante em termos de prestígio social. Ocorre que em 1961, quando tive que optar, a USP decidiu que todas as sua Unidades, até então dispersas pela cidade de São Paulo onde eu morava, deveriam se mudar para o campus do Butantã. Esta decisão era dramática para mim que morava no bairro do Brás, de onde seria necessário pegar dois ônibus para ir e mais dois para voltar do Butantã todo santo dia se fosse estudar na USP.

Inicialmente, a Escola Politécnica apresentou alguma resistência à mudança, e eu fiquei torcendo para que ela conseguisse ficar no Bom Retiro, onde eu conseguiria chegar com uma única condução. Mas a Poli logo cedeu à pressão da Reitoria (ao contrário da Faculdade de Direito, que continua até hoje no Largo São Francisco), o que me deixou aflito em busca de alternativas. Neste momento decisivo (em meados de 1961), fui contactado por um colega de classe que era e é até hoje fanático por aviões, que estava organizando um grupo para visitar o ITA, do qual eu nem tinha ouvido falar.

Inicialmente fiquei meio hesitante pois, como eu disse ao colega, "você gosta de avião mas eu gosto de matemática". Ao que ele me respondeu de pronto: "mas pra fazer avião precisa de muita matemática!". Convencido por este argumento, juntei-me ao grupo e fomos a São José dos Campos para conhecer o ITA. Lá chegando, logo fizemos contacto com um grupo de veteranos que foram muito solícitos. Alguns carregavam na cintura suas réguas de cálculo, que me impressionaram pela facilidade de cálculo com o uso de logaritmos, sobre os quais eu já sabia alguma coisa. Mas fiquei ainda mais impressionado quando eles nos convidaram para conhecer um laboratório de eletrônica, onde um dos veteranos me mostrou alguns geradores de sinais e como esses sinais poderiam ser vistos numa tela de osciloscópio.

Para coroar o "show" de eletrônica, ele usou dois sinais senoidais sincronizados para gerar na tela algumas figuras de Lissajous que variavam com a defasagem entre as duas ondas. Na ocasião, fiquei fascinado com esta demonstração, pois ela parecia dar vida à matemática que, até então, parecia viver apenas em equações escritas no papel. A partir deste episódio, adotei o ITA como minha primeira opção, e tive a felicidade de conseguir uma das 100 vagas oferecidas aos 2000 candidatos de então.

No ITA recebi uma boa formação profissional como Engenheiro de Eletrônica, mas não havia ainda espaço para receber a formação de pesquisador que eu almejava. Felizmente, porém, tive a oportunidade de interagir com alguns professores que haviam se doutorado no Exterior, e que me estimularam a seguir este caminho. Durante o quinto ano (1966), estagiei na Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), um órgão do CNPq que mais tarde deu origem ao INPE. Naquela ocasião, o CNPq tinha um convênio com a NASA, pelo qual esta conferia um "international fellowship" a bolsistas do CNPq indicados por este, naturalmente por consulta à CNAE, para fazer pós-graduação em instituições americanas. Para obter esta condição, eu precisaria conseguir admissão numa dessas instituições. Fui então atrás dos formulários em papel pelo correio (não havia Internet!), fiz os testes necessários de inglês e de aptidão (GRE), e logrei admissão na Universidade de Stanford, para onde embarquei em 1967 já como "NASA Fellow", para retornar no final de 1971 com os títulos de M.Sc. e Ph.D..

Em Stanford recebi uma formação de pesquisador, que foi fundamental para desenvolver o trabalho realizado na Unicamp de 1974 a 2006 e na UFABC de 2006 até 2014, quando fui aposentado compulsoriamente por ter chegado aos 70 anos de idade.

2. Que transformações tecnológicas o senhor experimentou, e quais delas mais lhe impactou?

Durante o meu curso de graduação nos anos 60, as comunicações no Brasil eram totalmente analógicas, de maneira que a primeira transformação que me impactou, já nos anos 70, foi a digitalização. Foi a digitalização que pautou a minha pesquisa sobre a transmissão de sinais digitais de voz em cabos metálicos (bifilares e coaxiais) nos anos 70, e posteriormente em fibras óticas a partir dos anos 80.

Com o surgimento da tecnologia WDM nos anos 90, a a capacidade das fibras deu um salto, pressionando a capacidade de processamento eletrônico nos nós, e induzindo o surgimento de novas arquiteturas de rede com uso de funcionalidades fotônicas. Assim, passei a direcionar minhas pesquisas para as redes óticas, inclusive e especialmente a incorporação da fotônica na sua evolução. Atualmente, estou me debruçando também sobre a aplicação do aprendizado de máquina por reforço no gerenciamento dessas redes.

3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

Mudaram as tecnologias e os modelos de negócios, aquelas em sintonia com estes. As mudanças anteriores à privatização (ocorrida nos anos 70 a 80 no mundo desenvolvido, e em 1998 no Brasil) diziam respeito à crescente digitalização das redes de comunicações, visando ao melhor aproveitamento da rede de cabos metálicos instalada nas regiões metropolitanas. Com a privatização, tivemos o aprofundamento da convergência entre voz, dados e video; a predominância do tráfego IP gerado pela Internet, o crescimento desmesurado das comunicações móveis sem fio; a "mineração de banda" levando à plena utilização do espectro ótico nas redes WDM (embora com baixa eficiência que está sendo corrigida hoje com o advento das redes elásticas); e o crescente uso de fotônica nos nós da rede de fibras óticas em associação com novas funcionalidades (como roteamento, "grooming" e outras) em novas arquiteturas destinadas a acompahar a crescente capacidade dos sistemas óticos de transmissão.

O que aconteceu foi que a universalização dos serviços de telefonia nos países ricos, alcançada nos anos 70, esgotou o álibi do modelo monopolista das Telecomunicações vigente até então desde os anos 1930, ao mesmo tempo em que a digitalização das redes e a disseminação dos computadores "mainframe" no âmbito de grandes corporações gerou uma pressão por parte destas para desmontar o monopólio a fim de facilitar a interconectividade entre essas máquinas. A partir daí a inovação na área de serviços explode, e os desafios tecnológicos mudam de natureza: no lugar da barreira da miniaturização dos sistemas, ou pelo menos junto a ela, surge forte a barreira da complexidade própria das redes multi-serviço que dão suporte à Internet.

4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

Participei do Simpósio Brasileiro de Telecomunicações realizado no Rio de Janeiro nas instalações da PUC em 1983, durante o qual foi realizada a Assembléia fundadora da SBrT. Na época, eu coordenava um importante convênio da Unicamp com a Telebrás, e tive a oportunidade de incentivar a participação de docentes da Unicamp no Simpósio. A partir daí, passei a participar dos Simpósios da SBrT anualmente, hábito que mantive durante décadas e ainda pretendo retomar.

Vou destacar um fato do qual fui protagonista. Depois do primeiro Simpósio na PUC-Rio, o segundo foi realizado em Campinas, que também sediava um grupo de pesquisa na Unicamp. O terceiro foi em São José dos Campos. O quarto foi no Rio de novo, mas num hotel da Zona Sul, e o quinto em Campinas de novo, mas agora no CPqD. Para o ano seguinte, no qual eu assumiria um mandato de Presidente da SBrT, havia a necessidade de definir um local, e aí surgiu uma controvérsia: todos concordavam que seria interessante sair do triângulo Rio-Campinas-SJC onde se concentrava a maior parte da pesquisa, mas muitos temiam que seria difícil atrair um bom número de participantes para algum lugar "distante".

Resolvi que deveríamos assumir esse risco, e consegui interessar o Prof. João Marques de Carvalho em levar o sexto Simpósio para Campina Grande, PB, onde foi realizado com sucesso. O sétimo Simpósio foi para Florianópolis, SC, que repetiu o sucesso de Campina Grande, e a partir daí o Simpósio não parou mais de circular por todo o território nacional, disseminando e encorajando o trabalho de todos.

5. Quais suas referências profissionais?

No espaço institucional, minhas referências profissionais são o IEEE e as instituições que ajudei a construir no Brasil: a SBrT, a Unicamp e a UFABC, cada uma com a sua missão, sua vocação e seu papel. Além dessas, tenho como referências a Universidade de Stanford e o ITA, que me ajudaram a continuar crescendo logo após a maioridade, e por extensão ao longo da maturidade e até hoje.

É claro que, no plano do crescimento pessoal, fui influenciado por muitas pessoas, através do exemplo, da erudição e da afinidade. Poderia citar muitas, mas correndo o risco de omitir outras. Por isso vou homenagear todas em apenas duas pessoas: Aldo Vieira da Rosa, meu orientador em Stanford; e Luiz Bevilacqua, mentor da UFABC.

De Aldo aprendi muito, não só sobre os processos ionosféricos (foco temático da minha Tese de Doutorado), mas também sobre a dinâmica da pesquisa científica no pós-guerra do século XX, particularmente no período da corrida espacial e sua esteira. Bevilacqua me abriu os olhos para a necessidade de resgatar a interdisciplinaridade da Ciência, perdida que fora nos descaminhos da especialização exacerbada durante o século XX; e me chamou para sonharmos juntos uma Universidade Interdisciplinar no ABC Paulista.

6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc. ) que considera interessante?

Como sou aposentado, meu trabalho é voluntário, tendo assim alguma semelhança com um hobby , apesar de envolver também compromissos acadêmicos que procuro honrar por uma questão de brio profissional. Sempre tentei combinar o profissionalismo com um certo amadorismo no sentido etimológico do termo, ou seja, de quem ama o que faz. Como hobby descompromissado, gosto também de estudar problemas táticos de xadrez, de responder algumas perguntas selecionadas (sobre probabilidades e outros bizus) do site Quora, e de caminhar.

Em geral, o livro que considero mais interessante é sempre um que eu esteja lendo no momento. No caso, é "O Algoritmo Mestre", de Pedro Domingos. Mas tenho interesse por tudo! Concordo com o que disse G.K. Chesterton: "Não existe assunto desinteressante, o que existe são pessoas desinteressadas".

7. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área?

Vou resumir numa frase que parece absurda: "Tenha os pés no chão e a cabeça nas nuvens!". Por "chão" entendo o legado da Ciência de Galileu até hoje: a Física desde Newton até Einstein e Planck, o famigerado Cálculo, a matemática finita, a Teoria dos Jogos, a arte da modelagem de sistemas, etc.. Por "nuvens", as coisas que estão surgindo hoje no horizonte, prenunciando um futuro nebuloso mas desafiador: a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas, os sistemas ciber-físicos etc. . Muitos hoje se iludem achando que vão dominar essas nuvens sem ter os pés bem firmes sobre esse chão. Mas o próprio Newton, ele mesmo um gigante, disse que só conseguiu ver mais longe por estar sobre os ombros de gigantes. O mesmo vale hoje para quem quiser ver mais longe ainda.

8. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

Vivemos um momento de grandes incertezas, dentre as quais o coronavirus é apenas mais uma, sobre a qual muitos cientistas e ativistas sociais, como o Bill Gates, já haviam nos advertido. Incertezas são sempre desconfortáveis, por isso acabam levando a (re)definições nas arenas da política e dos negócios. No regime democrático em que todos queremos viver, as definições devem levar em conta as opiniões de todos, bem como a realidade dos fatos que balizam a nossa existência.

Cabe aos cientistas estabelecer esses fatos com base no método científico e levá-los ao conhecimento de todos, pois como disse o senador P.D. Moyniham (NY, USA): "Todos têm direito à sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos". Daí a importância de fortalecer o ensino da Ciência nas escolas e da divulgação da Ciência através dos meios de comunicação e de museus, para que todos possam compreendê-la não apenas através dos seus frutos, mas especialmente através das suas raízes cognitivas, como sempre fizeram as religiões e ideologias.

← Voltar para Entrevistas
SBrT

Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Rua Marquês de São Vicente, 225 — Rio de Janeiro, RJ.

NavegaçãoSociedadeEventosAssocie-se
PublicaçõesRevista JCISEntrevistasNotícias
Contatosecretaria@sbrt.org.br+55 21 99777-3246Fale conosco →
© SBrT · Todos os direitos reservadosPolítica de privacidade