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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. Jaime Portugheis

Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1983), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp (1987) e doutorado em Engenharia Elétrica pela Darmstadt University of Technology, Alemanha (1992). Foi Professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp de 1994 a 2012 onde obteve a livre-docência em 1998. Desde 2012 é Professor Titular da Faculdade de Tecnologia da Unicamp. É co-autor de mais de oitenta artigos publicados em revistas e anais de congressos. Atuou como orientador em mais de vinte e cinco teses de mestrado e doutorado. Foi coordenador técnico de simpósios nacionais e internacionais na área de telecomunicações. É membro sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Seus interesses de pesquisa estão nas áreas de Transmissão Digital, Teoria da Informação e Codificação Aplicadas, com ênfase em algoritmos para receptores iterativos, modulação codificada e códigos corretores de erros.

INSTITUIÇÃO / CARGO
Prof. UNICAMP
PUBLICADA
01 SET 2021

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Desde a minha infância eu havia demonstrado curiosidade sobre o funcionamento de um rádio. Quando fiz 13 anos, ganhei de presente de aniversário do meu tio, que era engenheiro mecânico, o brinquedo chamado “Philips Engenheiro Eletrônico”. Logo depois, meu avô me deu de presente um curso por correspondência do Instituto Universal Brasileiro sobre eletrônica e rádio. Lembro de ficar ansioso aguardando a vinda pelo correio das apostilas e do material para montagem de um rádio. Não parou aí: fui estudar para ser técnico em telecomunicações na Escola Técnica Federal de Pernambuco em Recife. E depois entrei na Universidade Federal de Pernambuco para cursar engenharia elétrica. Minha curiosidade havia aumentado: queria entender como funcionava uma TV, principalmente seu tubo de raios catódicos. Na Universidade, ao me deparar com a disciplina “Princípios de Comunicações”, que era ministrada pelo Prof. Valdemar Cardoso, descobri que existia uma forte teoria matemática que modelava os sistemas de comunicações e comecei a me interessar por ela. Até hoje ainda não me aprofundei no estudo do tubo de raios catódicos. Minha curiosidade havia mudado da eletrônica das comunicações para a teoria dos sinais.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

Após o término do curso de graduação, iniciei meus estudos de mestrado no Departamento de Comunicações da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp sob a orientação do Prof. Walter Borelli. Ele sugeriu modulação codificada como tópico da pesquisa de mestrado. Modulação codificada se tornou um importante tópico de pesquisa após a publicação do artigo de Gottfried Ungerboeck no simpósio de teoria da informação do IEEE em 1976. Continuei fazendo pesquisa neste tópico quando fui para a Alemanha realizar meus estudos de doutorado na Universidade Técnica de Darmstadt sob a orientação do Prof. Bernhard Dorsch. Acredito que estes fatos contribuiram para que, ao voltar da Alemanha e me tornar docente na FEEC, eu escolhesse desenvolver pesquisa em teoria da informação aplicada. Em 2012, com a criação do curso de Engenharia de Telecomunicações na Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp no Campus de Limeira, passei a integrar o corpo docente da Coordenadoria de Telecomunicações da FT.

3. Quais suas referências profissionais?

Minha carreira profissional foi uma carreira acadêmica. Tive a oportunidade de conhecer e conversar com muitos professores que são referências no Brasil e no Exterior. Vou citar apenas alguns com quem tive oportunidade de trocar ideias em diferentes ocasiões. No Brasil, os professores Fábio Violaro, Amauri Lopes, Reginaldo Palazzo e Valdemar Cardoso. No exterior, os professores James Massey, Lajos Hanzo e João Barros. Com eles aprendi a dar igual importância às atividades de ensino, de pesquisa e de extensão na carreira universitária. E quando possível, procurar integrá-las. Incluo nas atividades de extensão a participação em sociedade técnicas e/ou científicas.

4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

Eu vejo esta participação como uma oportunidade única de nos colocar em contato com estudantes, docentes, pesquisadores e os mais diversos profissionais das indústrias e das empresas. A participação nestas sociedades é sem dúvida um fator que impulsiona o desenvolvimento profissional de seus membros. Muitas destas sociedades se tornaram uma referência para profissionais de diferentes áreas e a SBrT é uma delas. Além destes aspectos, elas podem contribuir de forma ativa no enfrentamento dos problemas de qualquer país. No ano passado, a participação da SBrT na “Frente pela Vida” e no apoio financeiro às comunidades carentes são exemplos disto.

5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria

                  de nos contar?

Participei pela primeira vez num simpósio da SBrT em 1986 no Rio de Janeiro. Era o IV Simpósio Brasileiro de Telecomunicações. Apresentei resultados da minha pesquisa de mestrado. Desde então, só deixei de participar de alguma edição do simpósio por me encontrar fora do Brasil. O simpósio de 2017 (realizado em São Pedro) teve a presença do Prof. Mohsen Kavehrad que ministrou uma plenária sobre “Optical Wireless Communications”. Ele havia recentemente se aposentado após uma longa e bem sucedida carreira profissional e acadêmica. O fato que me chamou a atenção foi a maneira engajada como ele participou do simpósio inclusive assistindo as sessões de posters dos alunos de iniciação científica e conversando com eles. Um dia antes da sua plenária, ele foi verificar o sistema de projeção das transparências e sugeriu que de alguma maneira a qualidade da imagem projetada poderia ser melhorada. Após várias tentativas via software, ele solicitou uma escada e orientou o pessoal de suporte a ajustar o foco do projetor. Isto contribuiu para a qualidade das imagens das apresentações durante o evento.

6. Como foi a experiência de realizar um Simpósio Brasileiro de Telecomunicações?

Eu tive a oportunidade de participar da organização do simpósio em duas ocasiões: em 2005 e em 2017. Em 2005, fui um dos coordenadores técnicos, atuando em conjunto com os Profs. Paulo Cardieri e Nelson Saldanha. A coordenação geral foi do Prof. Palazzo que aceitou realizar o simpósio em Campinas com um prazo menor para preparação. Apesar do prazo, a dedicação dos membros do comitê organizador na preparação proporcionou a realização de um simpósio com um número significativo de participantes. Foi introduzido nessa edição o sistema JEMS de submissão de artigos. E também, pela primeira vez, o simpósio passou a contar com sessões de trabalhos de iniciação científica. Em 2017, fui um dos coordenadores gerais, atuando em conjunto com o Prof. Celso de Almeida. O simpósio foi realizado em São Pedro, uma estância turística próxima do campus da Unicamp em Limeira. O comitê organizador contou com a participação de docentes da Faculdade de Tecnologia e da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp em Limeira. Foi incluído nessa edição o espanhol como uma língua oficial do simpósio, o que atraiu participantes de países vizinhos.

7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

Minhas atividades profissionais não exigem minha presença num laboratório. Eu tenho utilizado ferramentas de vídeo conferencia para ministrar aulas e também para as reuniões com colegas e alunos. Também tenho utilizado uma mesa digitalizadora substituindo o quadro que uso nas aulas presenciais. Mas a minha sensação é que estas atividades sofrem uma perda de qualidade quando realizadas de maneira remota.

8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

Na era digital em que vivemos, considero o hábito de ouvir notícias no rádio e na TV como um hobby. E pratico muito. Gosto de ler romances. Mas também outros gêneros. Estou lendo no momento “Arrancados da Terra” de Lira Neto. É um livro sobre fatos históricos. Mas como alerta o próprio autor: "Muito tempo atrás, lá no século XVII. Escrevi um livro que nos lança perguntas atuais - a maioria, incômodas, mas necessárias e urgentes. É uma obra sobre a luta e a resistência contra a intolerância, o preconceito, a construção dos discursos de ódio, as teorias conspirativas, a constituição de inimigos imaginários, a propensão a encarar o outro, o diferente, como uma ameaça a ser eliminada. Infelizmente, nada pode ser tão atual quanto isso."

9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

Mantenha-se dentro da ética profissional. Em poucas palavras: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você.” Arrisque-se. Não tenha medo de errar. O que importa é a qualidade do erro.

10. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

Sem dúvida as “Superfícies Inteligentes Reconfiguráveis” representam uma nova área de pesquisa em comunicações sem fio para o futuro próximo. Por indicação do Prof. Weiler Finamore, iniciei recentemente a leitura do livro “Wave Theory of Information” escrito pelo Prof. Massimo Franceschetti. O livro inicia uma unificação da teoria das ondas eletromagnéticas e a teoria da informação. O desenvolvimento desta unificação deverá representar também uma nova área de pesquisa em comunicações sem fio.

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