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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. João Cesar Moura Mota

Bacharel em Física pela Universidade Federal do Ceará em julho/1978, Mestre em Engenharia Elétrica pela PUC/Rio em setembro/1984, e Doutor em Engenharia Elétrica pela UNICAMP em agosto/1992. Foi Professor da Universidade Federal do Ceará desde 1979, onde atuou como Professor Titular desde 1999. Fundou o Departamento e o Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Teleinformática (Mestrado e Doutorado), tendo sido seu Chefe e Coordenador, respectivamente. Fundou ainda os cursos de Graduação em Engenharia de Teleinformática e de Engenharia de Telecomunicações. Ministrou diversos cursos na área de Sistemas de Telecomunicações em nível de graduação, pós-graduação stricto sensu e especialização. Nos departamentos de Engenharia Elétrica e Engenharia de Teleinformática, desenvolveu atividades de P&D em algumas áreas, entre elas em processamento de sinais em sistemas de comunicação digital e criou a área de Educometria, com inúmeras dissertações e teses orientadas, algumas em regime de cotutela, e mais de 300 trabalhos publicados em congressos e revistas científicas nacionais e internacionais, com corpo de revisores. Atuou como estagiário de doutorado no CPqD de 1987 a 1989 e no Centre National des Télécommunications (CNET) da France Télécom, em Lannion, França, de 1989 a 1990. Participou de cooperações internacionais coordenando projetos europeus, tais como: ALFA, ALBAN, EUBRANEX, e franco-brasileiros CAPES-COFECUB e BRAFITEC/CAPES/CDEFI. Foi responsável pela criação do 1º Programa de Dupla-Diplomação de Graduação no Brasil em parceria coma França. Foi bolsista de produtividade do CNPq por vários anos, e bolsista de pós-doutorado pelo CNPq, e professor convidado no Institut National des Télécommunications (INT) em Evry, França, de Agosto/1996 a Julho/1998. Foi Professor convidado no Institut de Recherche en Communications et Cybernétique de Nantes (IRCCyN), na França, de junho a julho de 2006, e realizou um ano sabático no Laboratoire d'Informatique, Signaux et Systèmes de Sophia-Antipolis (I3S/CNRS), França, de agosto/2008 a Julho/2009, com bolsa da CAPES. Na UFC, também foi responsável por realizar e conduzir diversos projetos, contratos e convênios científicos e acadêmicos em cooperações com instituições acadêmicas e empresas nacionais e internacionais, tais como: ERICSSON, TELECEARÁ, Centro Aeroespacial Alemão (em alemão: Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt - DLR), ITA, AEB, INPE, diversas universidades e escolas de engenharia na França, tais como: Télécom Paris, Télécom Saint Etienne, Télécom SudParis, Ecoles Centrales, Institut National des Sciences Appliquées - INSA, École Supérieure d'Électricité - SUPELEC, Institut National des Télécommunications, I3S/CNRS, Université Côte d'Azur - França, entre outras. Atualmente, é Diretor da Escola Integrada de Desenvolvimento e Inovação Acadêmica da UFC, e é professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Teleinformática da UFC. O Prof. João Cesar teve sempre participação ativa na Sociedade Brasileira de Telecomunicações da qual foi Sócio Fundador e membro de seu Conselho.

INSTITUIÇÃO / CARGO
Prof. na UFC
PUBLICADA
01 OUT 2024

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Formei Bacharel em Física pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, em julho de 1978. Eu havia entrado na Universidade Gama Filho, no curso de Engenharia de Telecomunicações em janeiro de 1974, mas decidi não cursar por ter migrado à Fortaleza nesta época por razões pessoais. Sempre tive interesse em Telecom, despertado, ainda no ginásio do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, na década de 1960, pelo nascimento e expansão da EMBRATEL. Saí do Pedro II ao final do 2º ano científico, para cursar o 3º ano e o cursinho preparatório dos vestibulares para o Instituto Militar de Engenharia (IME) e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), as famosas turmas IME-ITA, do Curso Bahiense, no centro do Rio de Janeiro, em janeiro de 1973. Ao fim deste ano, não tendo mais interesse em ficar no Rio, fiz sem motivação a 1ª. prova do IME e o vestibular da CESGRANRIO, organismo que gerenciava os vestibulares de grande parte das instituições de ensino superior no Rio. Estando em Fortaleza a partir do fim de janeiro de 1974, trabalhei e estudei, ao longo do 1º semestre, me preparando para o vestibular da Universidade Federal do Ceará em julho. Não havendo a formação superior em Telecom no Ceará, após entrar por vestibular em Engenharia Civil em julho/1974, optei por me transferir para o curso de Física no início de 1976, no interesse de fortalecer minha formação em física-matemática, mecânica e eletromagnetismo, pois previ realizar o mestrado em alguma área de Física aplicada. Após minha formatura em julho de 1978, iniciei e não conclui, por motivos de natureza familiar, mestrados em Física da Matéria Condensada na UFC (1978) e Engenharia Nuclear no Instituto Militar de Engenharia (IME-1979). No entanto, já como professor da UFC, a área da Engenharia Elétrica (subárea: Telecomunicações), na PUC-Rio, acabou sendo a minha escolha para realizar o mestrado a partir de março de 1981, indo, finalmente, ao encontro de meu sonho inicial de obter formação e atuação em Telecomunicações. Fiquei motivado em construir uma formação própria nesta área para participar da formação acadêmica de engenheiros e dar vazão científica na pesquisa em área que estava em crescimento naquela ocasião. Investi no fortalecimento dos alicerces científicos para as aplicações em Telecomunicações no contexto físico, ao me dedicar na teoria do campo, no mestrado, e depois na teoria dos sinais durante o doutorado.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

A opção por investir na minha formação em Telecomunicações não foi fácil, tendo havido outras situações aliadas a oportunidades profissionais. Iniciei essa trajetória como professor-bolsista de mestrado em Física de agosto a dezembro de 1978 no Departamento de Física da UFC, com bolsa da CAPES, e tendo uma passagem como bolsista do CNEN no mestrado em Eng. Nuclear do IME/RJ de janeiro a junho de 1979. No entanto, comecei minha carreira profissional, propriamente dita, contratado como professor colaborador para atuar no Curso de Graduação em Engenharia Elétrica (CGEE), e ser lotado no Departamento de Termodinâmica e Eletrotécnica do Centro de Tecnologia (CT) da UFC, a partir de agosto de 1979. Em seguida, em 1983, fui lotado no Dep. Engenharia Elétrica (DEE) do CT/UFC, o qual ficou responsável pelo CGEE. Este curso tinha seu foco exclusivo na formação de alunos, naquela ocasião, exclusivamente voltado para sistemas elétricos de potência. Em seguida, como já citado, tomei a decisão de iniciar o meu terceiro mestrado em Eng. Elétrica na PUC-Rio, na sub-área de Telecomunicações. Decisão difícil de ser tomada e apoiada, pois só havia um colega com passagem de formação pelo Centro de Estudos em Telecomunicações da PUC-Rio (CETUC), mas que atuava em teoria de sistemas. O apoio desse colega, Dr. Augusto Cesar Gadelha Vieira, foi muito importante para minha decisão e liberação institucional para ir ao CETUC, pois pouco tempo depois, ele retornou ao Rio e não havia ninguém mais ligado a Telecom no DEE/UFC. Após meu retorno como Mestre em 1984, cuja dissertação foi na área do eletromagnetismo aplicado, com tema em propagação troposférica, comecei a preparar lentamente a opção de formação dos alunos em Telecom para o curso de Engenharia Elétrica da UFC, realizando um convênio para estágios na empresa TELECEARÁ. Nesse tempo, fiz um breve estágio na EMBRATEL em Fortaleza. No entanto, isso não era suficiente, sendo necessário que houvesse vários contratos para professores com formação em Telecom. Resolvi, então, dar continuidade à minha formação através do doutorado em Eng. Elétrica na UNICAMP, cuja tese, defendida em agosto de 1992, focando o processamento de sinais em telecomunicações. Neste mesmo ano, juntamente de outro colega, que retornava de seu doutorado em sistemas embarcados na Inglaterra, começamos a montar um mestrado em Engenharia Elétrica na UFC com área de concentração em Teleinformática, junto a outros colegas de outros departamentos e com formações correlatas. Este curso iniciou em 1994, e em 1995 conseguimos ter bolsas para os mestrandos oriundas de um novo convênio com a TELECEARÁ, e iniciamos um curso de Especialização em Redes de Comunicações Digitais para o seu corpo de Engenheiros. Uma nova versão desta Especialização ocorreu em 1997. Em agosto/1996 fui realizar o meu primeiro pós-doutorado na França, no Institut National des Télécommunications, em Evry. Fizemos muitos projetos em parceria, geramos produção intelectual e preparamos novas estratégias para instalarmos a área de telecomunicações na UFC. Após meu retorno em agosto de 1998, assumi novamente a coordenação do Mestrado em Eng Elétrica da UFC, e mudamos a área de concentração anterior para Processamento de Informação, incluindo ainda uma nova área, Processamento de Energia. Juntamente do grupo de novos professores no DEE, criamos em 1999 a ênfase Teleinformática no curso de graduação Eng. Elétrica. A preparação de ex-alunos de graduação para a área de Telecomunicações e outros no contexto correlato da Eng. Elétrica e da Eng. de Computação, e a absorção deles através de programas de pós-doutorado das agências de fomento FUNCAP, CAPES e CNPq em nossa instituição favoreceu a criação do Dep. de Eng. de Teleinformática em 2001 e também do seu Programa de Pós-Graduação em Eng. de Teleinformática em 2004, juntamente do início do Curso de Graduação em Eng. de Teleinformática no mesmo ano. Estava assim formado o eixo de formações pelo ensino, pela pesquisa e pela extensão na área integrada das Telecomunicações e da Informática. Somente 10 anos depois, e por razões acadêmicas diversas, foi decidido criar, e iniciar em 2015, os cursos de graduação em Eng. de Telecomunicações e Eng. de Computação, iniciando a extinção do curso de graduação em Eng. de Teleinformática. Ao longo da trajetória, muitos trabalhos e parcerias locais, nacionais e internacionais foram amealhados, e seus produtos sempre implicados e produzidos em razão dos processos de formação. Portanto, a minha trajetória profissional pode ser entendida na vertente da contribuição para a construção na UFC de formações acadêmicas nas áreas específicas citadas acima, buscando a excelência científica e tecnológica e a produção intelectual e de profissionais para os diversos cenários de trabalho e campos de atuação, especialmente aqueles implicando as ciências e as tecnologias da informação e das comunicações.

3. Quais suas referências profissionais?

Como citado acima, tive a felicidade de vivenciar a passagem do Prof. Augusto Cesar Gadela Vieira na UFC, com quem pude compartilhar da excelência de sua conduta como homem, profissional e personalidade. Além dele, posso destacar na UFC o Prof. Jesamar Leão de Oliveira, Presidente da Companhia de Energia Elétrica do Ceará, e Professor Titular criador do CGEE na UFC, cujo caráter e excelência científica e tecnológica ajudaram a fortalecer o meu ambiente de trabalho e as condições para que eu aprofundasse minha formação como professor de Engenharia Elétrica. Dentre os diversos colegas de convivência profissional em minha trajetória, destaco ainda, como de grande contribuição em minha formação e atuação como professor e pesquisador, os professores João Célio Brandão e Hélio Waldman, ambos de grande importância para a pesquisa e para a formação de profissionais na área das Telecomunicações no país e para a SBrT.

4. O senhor tem experimentado cooperações internacionais há bastante tempo, pode nos falar sobre elas e qual a importância nos seus trabalhos e pesquisas dessas cooperações?

Antes de tudo, o espírito de parceria, de compartilhamento de ações e de produções científicas, em qualquer ambiente e cenário, faz parte de minha maneira de ver e modo de viver profissional. A Aprendizagem Cooperativa, faz parte de minha forma de atuar desde o tempo em que esse nome não era usado ou conhecido para congraçar e reunir várias estratégias, métodos e técnicas focando a relação ensino-aprendizagem-ciência e seus produtos. Fiz isso desde sempre, e percebi que poderia avançar mais e trazer mais benefícios para o crescimento da ciência e do meu país, favorecendo uma maior integração nacional e internacional. O desafio internacional foi conquistado sob a acreditação produtiva e sob o interesse recíproco das equipes, brasileiras e estrangeiras, no estabelecimento das parcerias científicas, especialmente aquelas que focavam a mobilidade de curto e longo termo, tanto de pesquisadores como de estudantes, bem como a busca de resultados produtivos e a troca de experiências científicas. O meu foco foi sempre a Europa, em especial a França. Desenvolvi muitas parcerias acadêmicas e científicas, gerando, gerenciando e orientando muitos produtos intelectuais e de formações de graduados, mestres, doutores e pós-doutores. O aprendizado foi muito grande e seus resultados de importantes e diversos impactos para todos os implicados. Do ponto de vista das formações de recursos humanos, nos projetos que eu coordenei em parceria houve mais benefícios para os brasileiros do que para os estrangeiros. Grande parte dos brasileiros formados, especialmente doutores e pós-doutores, tornaram-se professores de universidades no Brasil e no exterior. Em particular, boa parte destes veio compor o corpo docente das áreas de engenharia de telecomunicações e engenharia de computação da UFC. Alguns deles ficaram no exterior. No âmbito científico, vários deles despontam como cientistas reconhecidos e valorizados no cenário internacional. Para mim, a pesquisa realizada no âmbito das relações internacionais trouxe a certeza de que sempre fizemos e continuaremos a praticar a excelência científica.

5.O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

As sociedades e academias representam para mim ambientes próprios e ricos para a discussão aprofundada sobre a memória e a evolução científica dos setores em que atuam expressos em vários formatos e produtos, dentre eles seus simpósios, congressos, debates, revistas, e tantos outros. Tive o prazer de me associar a algumas sociedades, nacionais e estrangeiras, desde 1976 na Sociedade Brasileira de Física, na SBPC em 1978, no IEEE em 1994, entre outras, das quais desfrutei e desfruto de suas relações e atividades. Tive a oportunidade de participar da fundação da SBrT em 1983, quando realizava o mestrado no CETUC, e durante algum tempo fui conselheiro da SBrT.

6. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

A minha 1ª participação foi como ouvinte no 1º simpósio da SBrT no Rio, em1983, e como autor de artigo no 2º simpósio da SBrT no CPqD em Campinas, em 1984. Depois desses simpósios, estive participando em muitos outros simpósios da SBrT, inclusive na coordenação geral de dois deles, o simpósio nacional da SBrT em 2001 e o International Telecommunications Symposium da SBrT/COMSOC/IEEE em 2006, ambos em Fortaleza. Destaco aqui que estes dois simpósios no início dos anos 2000 foram estratégicos para contribuírem no fortalecimento da trajetória de crescimento da área acadêmica de Telecomunicações na Universidade Federal do Ceará, além de dar visibilidade de suas formações graduada e pós-graduada, ambas em fase inicial de consolidação naquela época. Esta trajetória fez parte da política científica e acadêmica existente nos propósitos da SBrT, em sua criação, para o país e nas ações através de seus veículos e instrumentos de incentivo e divulgação, contribuindo para o desenvolvimento da área no Brasil.

7. Como o senhor lidou com as atividades profissionais no período de distanciamento social?

Muito complicado e triste aqueles momentos da recente pandemia. Ainda vivemos sob seus efeitos. No entanto, foi possível adotar as práticas remotas, poucas exitosas, e a maioria com certa limitação e alcance questionável. A qualidade foi prejudicada, muitas atividades tiveram seus resultados reduzidos, em quantidade e qualidade. Vários métodos adotados precisavam e precisam ser aprimorados criteriosamente no campo da educação e de sua avaliação, voltados para a formação. A meu ver, estamos aquém de um sucesso garantido, com ou sem distanciamento social. As pesquisas atuais para seus melhoramentos devem continuar a ser intensificadas.

8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

Sempre gostei de futebol, e pratiquei durante longo tempo. Acompanho o futebol de um modo geral, no Brasil e no exterior. Gosto de música, e apesar de continuar apreciando vários de seus estilos, não tenho me dedicado tanto assim. Um dos meus netos tem me incentivado para retomar este caminho, tão exercido por mim até os 30 anos de vida.

Acompanho as notícias todos os dias nos veículos de comunicação, especialmente rádio e televisão. Em termos de comunicação por algum grupo social, não faço uso de redes em geral, somente alguns poucos grupos específicos por whatsapp. As matérias que acompanho são de esporte e política, e ainda aquelas científicas q se sobressaem. Não tenho preferência por esse ou aquele articulista ou escritor ou jornalista temático, mas os trabalhos histórico e científico de Elio Gaspari e Lira Neto, por exemplo, fazem parte de minha apreciação.

9. Dos seus artigos, qual o senhor considera mais marcante? Pode nos dizer o motivo?

Há muitos artigos que nos apaixonamos desde suas ideias até suas comprovações, passando pelas durezas de suas construções, todos com suas contribuições científicas com algum lugar ou algum destaque na atenção das pessoas nas diversas comunidades em que se propagam e que são consumidos e/ou utilizados. Seus valores de impacto podem ser avaliados pelos diversos indicadores científicos atualmente existentes. Em minha opinião, um dos vários artigos que me marcaram, cada um em sua época e seu cenário, é o artigo: “de Lucena, A.M.P. ; Mota, J. C. M.; Cavalcante, C.C. . Optimum detection of non-orthogonal QAM signals with spectral overlapping. IET Communications , v. 3, p. 249-256, 2009.”, o qual abordou de forma simplificada o tema da não-ortogonalidade no interesse de ir ao encontro do aumento da capacidade espectral dos sistemas de comunicação, assunto sempre merecedor de atenção na comunidade científica da área. Há outros trabalhos, inclusive de maior impacto na comunidade, que talvez merecessem ser por mim destacados, cada um com sua história.

10. Tendo contribuído na formação de muitos jovens, o senhor considera que há mudança no perfil dos alunos? Se há em que sentido?

A meu ver, o perfil médio do estudante de nível superior está sofrendo uma diminuição no grau de interesse questionador. E creio que isso não acontece só em nosso país. Tenho noção de um ou outro fator que está influenciando neste comportamento, mas a falta de interesse maior pelos conteúdos expostos e a falta de atenção aos estudantes, especialmente àqueles com deficiências de formação na educação básica, as quais se tornam evidentes nos dois primeiros anos dos cursos, sempre estiveram entre os destaques de minha observação ao longo do tempo, corroborado nestes últimos anos pelas ações que desenvolvo, devido a minha função de presidente de comissão de programas de bolsas acadêmicas da UFC. De outro lado, tudo indica que as estruturas educacionais precisam ser atualizadas mais rapidamente, desde a gestão acadêmica até o ambiente de aula, remoto e presencial. A maioria dos indicadores associados à medida de aprendizado do alunado revela perdas sensíveis, colocando em cheque todo o sistema de ensino e de aprendizagem. Em minha opinião, é necessário que, entre outras medidas simultâneas, é preciso intensificar efetivamente o suporte técnico e acadêmico ao alunado nos dois primeiros anos, com a atuação dos docentes e de alunos de pós-graduação, por exemplo, além dos habituais métodos e procedimentos já exercidos.

11. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

Aconselho não só aos profissionais de engenharia, mas a todos em geral, estarem preparados para manterem-se em estado de estudo e de instrução contínuo, tanto para reforço e eventual reposição de conteúdo básico, como para incorporar conteúdos novos que vão ao encontro de atualizações e de prospecções. Esta postura independe de “modas”, mas fundamenta a preparação para todas elas e muito mais, especialmente aquelas ligadas à educação e às transformações tecnológicas, cujos “ventos” podem provocar mudanças de direções na atuação profissional. Acredito que, para isso, seja muito importante ter dentro de si a capacidade natural do exercício “estigmatizado” da determinação (ponderável) e da fé (imponderável).

12. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

Todas as ciências associadas à TIC, puras e/ou aplicadas, que direta ou indiretamente influenciam o favorecimento seguro ao aumento da velocidade, da capacidade de armazenamento e da robustez dos processos associados à geração, à transmissão, ao tratamento e ao consumo ou à utilização da informação, são candidatas naturais para a atenção de potenciais interessados nos futuros próximo e distante. Há muitas profissões que deixaram de existir, outras que existem, outras que deixarão de existir e ainda outras que irão surgir, na trajetória da evolução do ser humano, sendo muito difícil prever com precisão qual será esta dinâmica, mas de forma previsível as áreas vinculadas à evolução atual e imediata das ciências de dados, tais como a informática e as engenharias, são aquelas que apontam para impactos mais transformadores da sociedade como um todo, a meu ver. A manipulação cada vez mais eficiente e eficaz dos fenômenos quânticos, em pequena ou larga escala, está sendo também uma das responsáveis por aquelas transformações.

13. Sabemos que a aposentadoria é uma decisão que causa muitas dúvidas. Como foi essa decisão para o senhor? E como está sendo essa nova fase da vida?

Nunca tive dúvida sobre a decisão de me aposentar, pois acreditava que ela seria natural. E foi o que aconteceu. Os motivos principais impuseram-se dentre os caminhos que se apresentaram na evolução do meu estado de espírito, considerando questões pessoais, profissionais e familiares. Não houve controvérsias ou enganos. Ela está muito recente, um ano apenas, e prevejo na sequência uma mudança natural de ocupação, sem deixar de lado a minha essência de curiosidade, aliando-se à experiência de vida e ao prazer de voltar-me mais intensamente ao convívio familiar, desfrutando mais de outros afazeres. Dedicação integral à minha mulher e minha família, eventos artísticos, momentos de recolhimento, leituras diversas,...., enfim, o que puder ser feito e ainda o que não fiz até aqui. Há muito que fazer e desfrutar. Não ficarei ocioso. Por fim, espero acompanhar a evolução científica e tecnológica, especialmente as Telecomunicações, porém em plano não tão prioritário.

14. Algo mais que gostaria de comentar?

Desejo que nosso país seja mais justo e a democracia consiga se instalar e ser exercida plenamente, tomando os devidos cuidados para não adoecer e tornar-se “democratite”. A cidadania seja realmente compartilhada, exercitada e respeitada por todos. A minha geração teve sua consciência muito atingida pela ditadura militar, pois foi instalada na fase entre a nossa infância e adolescência. Felizmente, eu estava entre aqueles que despertaram logo, reforçando o coro: (qualquer!) ditadura (e seus efeitos!) nunca mais. É importante, a meu ver, que venhamos a contribuir mais e efetivamente nos fóruns para a formação dos adolescentes e jovens, atuando, por exemplo, na orientação e recuperação dos ensinos fundamental, médio e superior, em articulação com as instituições implicadas, naquilo que puder ser exequível. Observo que estamos diminuindo o nível da formação dos engenheiros, mas a reação para sua recuperação tem sido mais lenta do que a velocidade do desenvolvimento científico e tecnológico praticadas nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento. A “eterna” dependência científica e tecnológica de nosso país vem agravando-se, sinalizando claramente uma perpetuação. O desenvolvimento da SBrT talvez pudesse incluir ações de apoio ao estabelecimento de parcerias institucionais para provocar melhorias na formação dos estudantes, especialmente para os alunos que entram no ensino superior. A SBrT teve um papel importante na época de retorno da democracia, no espaço da congregação dos especialistas da área das Telecomunicações, em conjunto de toda área científica do país, na luta para valorizar a ciência e a conquista tecnológica no e para o país. Manteve-se motivadora, articuladora e promotora de eventos a partir dos quais viu expandir o alcance de seus propósitos como sociedade científica para o país. Desejo que as gerações atuais e futuras da SBrT, bem como de outras sociedades científicas, participem ativamente e engrandeçam nosso país com suas produções intelectuais, formadoras e industriais, no interesse de torná-lo mais justo, soberano e auto-determinado para o seu povo.

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