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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. José Antonio Apolinário

Possui graduações em Comunicações pela Academia Militar das Agulhas Negras (1981) e Engenharia Eletrônica pelo Instituto Militar de Engenharia (1988), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Brasília (1993) e doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998). Realizou, também, um Estágio Pós-doutoral na Helsinki University of Technology (hoje Aalto University), Finlândia, entre 2004 e 2005. Coronel da reserva do Quadro de Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, atualmente é Professor Associado no Instituto Militar de Engenharia onde já foi Chefe do Departamento de Engenharia Elétrica e Vice-Reitor de Ensino e Pesquisa. Foi também Professor Visitante na Escuela Politécnica del Ejército, Equador, 1999 e 2000, e Pesquisador Visitante e Professor Visitante na Helsinki University of Technology, Finlândia, em 1997 e 2006, respectivamente. Foi ainda professor de cursos de curta duração na Universidad de la República (UdelaR, Uruguai, 2015) e na Nanjing University of Astronautics and Aeronautics (NUAA, China, 2016). Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em processamento digital de sinais, atuando principalmente nos seguintes temas: processamento adaptativo de sinais, algoritmos adaptativos com restrições, processamento de sinal de voz e áudio, localização de emissores e processamento em arranjo de sensores. Editou em 2008, pela Springer, o livro QRD-RLS Adaptive Filtering. O Dr. Apolinário é membro sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações e senior member do IEEE. Ele organizou e foi o primeiro Presidente do Rio de Janeiro Chapter da Sociedade de Comunicações do IEEE, foi um dos Coordenadores Técnicos do SBrT 2003, no Rio de Janeiro, e foi o Finance Chair do IEEE ISCAS 2011, que ocorreu em maio de 2011 também na cidade do Rio de Janeiro. De 2016 a 2017 foi o Vice-Presidente de Finanças da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT).

INSTITUIÇÃO / CARGO
PUBLICADA
01 SET 2020

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Inicialmente, agradeço ao Prof. Edmar o honroso convite para esta entrevista. A minha formação profissional teve duas partes, uma primeira graduação no Curso de Comunicações da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN, Resende-RJ, término em 1981) e, posteriormente, a graduação em Engenharia Eletrônica no Instituto Militar de Engenharia (IME, Rio de Janeiro-RJ, término em 1988). Certamente o que me levou para a área técnica, eletrônica em particular, foi o meu segundo grau na Escola Técnica Prof. Everardo Campos (ETEP, São José dos Campos-SP), onde ainda bem jovem tive a oportunidade de travar contato com minha futura profissão. O que sempre me fascinou foi aplicar conhecimentos teóricos (física e matemática) na solução de problemas práticos; apesar do gosto pela teoria, sou um engenheiro com um pé na prática.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

Logo após o IME e com a experiência prévia de servir como oficial de comunicações em unidades desta arma em Recife e no Rio, fui trabalhar no Centro de Instrução de Guerra Eletrônica (CIGE, Brasília-DF). Enquanto me dedicava à manutenção de equipamentos de Guerra Eletrônica (GE) e suporte aos cursos de GE do CIGE, fiz o mestrado, em tempo parcial, na Universidade de Brasília (UnB, Brasília-DF, defesa em 1993). Também nesse período, fiz um curso de quatro meses na Rohde & Schwarz, Alemanha, meu primeiro contato internacional na engenharia eletrônica. Nessa oportunidade, os ensinamentos de engenharia eletrônica obtidos no Brasil me deixaram bem à vontade num ambiente de trabalho na Alemanha. Após uma temporada de seis anos no planalto central, voltei ao Rio de Janeiro no final de 1994 para fazer o doutoramento na COPPE/UFRJ (defesa em 1998). Voltei a ser aluno: maravilha de vida (risos), me diverti muito com o Prof. Paulo Diniz e seu grupo; mas também foi um período de muito trabalho e dedicação (eu já era casado e com dois filhos pequenos). Em 1998, fui nomeado professor em comissão no IME. Descontando os dois anos de uma missão no exterior (1999 e 2000) e algumas interrupções de curta duração, estou no IME desde 1998. Lá, ainda como militar da ativa, fui chefe de departamento (engenharia elétrica) e pró-reitor (ensino e pesquisa) chegando a passar uma temporada como Subcomandante do Instituto. Em 2006, no posto de coronel, fui para a reserva e fiz concurso para professor do IME. Assumi o cargo de professor (como servidor civil) do IME em 2007 e progredi na carreira sendo atualmente Professor Associado. Nesse período, me dediquei menos à administração da instituição e mais ao ensino, à pesquisa, a projetos e a outras atividades acadêmicas, incluindo dois anos como Vice-Presidente de Finanças da SBrT.

3. O senhor fez missões de trabalho fora do país, também foi orientador de pessoas de outras nacionalidades. Pensando nessas experiências, o senhor consegue fazer um paralelo da formação técnica dada no Brasil e nos países que teve contato?

Estive dois anos como professor visitante na ESPE ( Escuela Politécnica del Ejército ), na cidade de Quito (Equador) além de alguns períodos mais curtos incluindo estágio pós-doutoral na HUT ( Helsinque University of Technology , hoje Alvaar University , Finlândia), mini-cursos (ESPE/Equador, Universidad de la República /Uruguai e Nanjing University of Aeronautics and Astronautics /China) e breves visitas (HUT/Finlândia e USN/Noruega). Orientei e co-orientei alunos de diferentes nacionalidades: equatorianos na graduação da ESPE, paquistanês no mestrado da HUT, peruano no mestrado da UFF, cabo-verdiano no mestrado do IME, chinês na USN ( University of South-Eastern Norway ... o cabo-verdiano mencionado, António L. L. Ramos, é hoje professor da USN e foi o orientador principal do chinês na Noruega, wow!), e equatorianos oriundos da ESPE na pós-graduação do IME. Co-oriento atualmente, com o Prof. Wallace Martins (que se encontra passando uma temporada em Luxemburgo), um ex-aluno da ESPE, com mestrado no IME, fazendo doutorado na UFRJ. A globalização está presente entre nós e o contato com pessoas de diferentes culturas é uma experiência muito rica. De quando fiz um doutorado sanduíche na HUT, trago uma amizade de mais de 20 anos com o hoje Prof. Stefan Werner, atualmente na NTNU (Noruega). A minha atuação na ESPE era mais voltada à graduação enquanto que nas demais instituições eu tive menor contato com a graduação e maior com alunos da pós-graduação. A ESPE leva uma influência do IME (Exército Brasileiro) que, há mais de 30 anos, envia professores/assessores para lá.

Nas universidades europeias, o Tratado de Bolonha, visando uma unificação do ensino e a facilitação do intercâmbio de alunos entre os países signatários, estabeleceu uma estrutura do ensino em três ciclos o que estimulou (observei isso de perto na Noruega) o bacharel em ciências em engenharia elétrica a ir para a indústria (mercado de trabalho) o mais rapidamente possível, com três anos de graduação ou 240 créditos ECTS ( European Credicts Transfer System , cada crédito correspondendo a 25 horas de trabalho do aluno). Tal processo, no meu entender, diferenciou o estilo do ensino em engenharia com respeito ao modelo de cinco anos adotado no Brasil (na Europa, cinco anos equivalem a dois ciclos, o segundo correspondendo ao mestrado). Para os educadores, a estrutura curricular é um desafio constante pois temos um tempo finito para ensinar uma carreira que vai se atualizando com enorme velocidade. O assunto é complexo e demandaria mais reflexões do que alguns palpites que eu possa dar em poucas linhas.

4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

Sempre tive curiosidade e uma certa atração por sociedades afins com meus interesses. A SBrT foi uma consequência disso, assim como o IEEE, onde também sou membro sênior. A participação no principal simpósio da sociedade é um evento de destaque onde podemos encontrar velhos amigos e fazer novos. A membresia estimula a participação por proporcionar economia na inscrição aos eventos da sociedade. Aos jovens engenheiros ou aspirantes a engenheiros de área correlata às telecomunicações e/ou processamento de sinais, se me permitem um conselho: explorem o que uma sociedade científica como a SBrT pode fazer para você e sua carreira. Os jovens se engajando nessas sociedades garantirão o futuro delas e os benefícios pessoais e profissionais às gerações vindouras.

5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

O primeiro simpósio que participei foi o Telemo’92, realizado no Centro de Treinamento da Telebrás, em Brasília. Foi um simpósio conjunto entre a SBrT (X SBT) e a SBMO (Sociedade Brasileira de Microondas). Mas meu primeiro artigo de conferência, embora eu não tenha atendido ao evento, foi no ano seguinte (1993) no XI SBT, em Natal-RN. Sempre gostei de participar dos eventos da SBrT. Dentre eles, destaco o de 2003, na cidade do Rio de Janeiro, no qual a sociedade celebrava 20 anos; neste simpósio eu fui um dos coordenadores técnicos. A organização de eventos dá trabalho, mas é muito gratificante. Um outro que, de certa forma, me marcou foi o de Curitiba (XXIX SBrT) onde apresentei, juntamente com um caríssimo colega de trabalho, um minicurso; também deu muito trabalho e também foi muito gratificante. Isso parece um aluno se lembrando de sua escola vinte anos depois de formado, ele sempre tende a se lembrar dos professores que o colocaram para trabalhar mais. :-)

6. Considerando que a SBRT é um fórum que reúne profissionais de Telecomunicações e Processamento de Sinais no Brasil, alguma ideia de como podemos ampliar a abrangência da nossa sociedade?

A mudança de nome do simpósio foi muito bem-vinda para pessoas como eu, que não trabalha especificamente com telecomunicações, mas com métodos e técnicas de processamento digital de sinais (PDS) que podem ser aplicadas também em telecomunicações. Isso certamente está ampliando a abrangência da sociedade pois não temos no Brasil um outro fórum específico para processamento de sinais. Espero contarmos cada vez mais com especialistas que usam ferramentas de PDS em diversas aplicações (biomedicina, processamento de sinais sísmicos, processamento de sinais subaquáticos, radar, aplicações financeiras, e outras presentes na chamada de trabalhos do simpósio desse ano). A abrangência da sociedade, em minha opinião, poderia ser ampliada tirando proveito da experiência adquirida na situação que vivemos: nessa pandemia, professores e alunos tiveram que explorar os recursos tecnológicos disponíveis para poderem se comunicar. Dessa forma, uma vídeo-aula ficou mais natural tanto para quem prepara e ministra quanto para quem assiste. Espero que o simpósio desse ano, que será virtual, seja um grande sucesso e leve as atividades (plenárias, palestras convidadas, minicursos e sessões técnicas) a um público maior. Minha ideia para ampliar a abrangência da sociedade seria a sociedade disponibilizar conhecimento: um exemplo é a possibilidade de acesso online aos minicursos, ou quem sabe micro cursos, talvez após alguma edição e preparando-os já com esse objetivo, ministrados durante o simpósio anual da sociedade. Alinhado a esta ideia, já encontramos no site da sociedade a disponibilização de palestras convidadas. Não podemos nos esquecer de estimular nossos membros a divulgar a SBrT em suas instituições.

Por último, uma atividade que já vem sendo realizada em diversas conferências internacionais e em algumas versões do SBrT é a competição entre estudantes: uma base de dados é usualmente disponibilizada, as regras são estabelecidas e quem conseguir o melhor resultado ganha um prêmio. O desafio sempre foi uma coisa muito motivadora para todos, em particular para os jovens estudantes de engenharia.

7. Quais suas referências profissionais?

Não posse deixar de mencionar meus estimados orientadores. Na graduação do IME, o saudoso Prof. Alcyone Fernandes de Almeida Júnior. Na pós-graduação, o Prof. Henrique Sarmento Malvar (mestrado na UnB) e Paulo Sérgio Ramirez Diniz (doutorado na COPPE/UFRJ), ambos Fellow Members do IEEE e ambos membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Todos profissionais muito competentes que ajudaram a moldar o meu perfil. Menções especiais ao Prof. Luiz Pereira Calôba (também membro da ABC e Professor Emérito da COPPE/UFRJ, foi orientador de mestrado dos meus orientadores de mestrado e de doutorado, sendo, portanto, meu avô acadêmico) e ao Prof. Marcello Luiz Rodrigues de Campos, Professor Titular da COPPE/UFRJ e parceiro de pesquisa por mais de 20 anos. Internacionalmente, muitos são os nomes que eu poderia mencionar como referência profissional mas abrevio lembrando do Prof. Harry Leslie Van Trees que teve uma trajetória com uma certa similaridade com a minha (claro que muitos e muitos dBs acima, mais risos) por ter primeiro passado por uma academia militar e depois se dedicado à pesquisa e ao ensino. Sua obra, publicada em quatro volumes, tem sido marcante nas disciplinas de pós-graduação em engenharia elétrica, nas linhas de pesquisa alinhadas às aplicações de processamento digital de sinais.

8. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

A pandemia de COVID-19 está sendo muito ruim para todos. Alguns são afetados num grau maior ou menor, mas estamos vivendo uma época marcante em escala mundial. A pandemia tem afetado fortemente o ensino. A pesquisa, quando não se depende de laboratórios e de reuniões presenciais, pode ser realizada em casa; ainda assim o contato com as pessoas e as rotinas de nosso dia a dia fazem falta. A falta de tomar aquele cafezinho os companheiros de trabalho, trocando ideias sobre trabalho ou assuntos extraclasses, está mostrando o valor da rubiaceae cum amicis . No IME, paramos três semanas e já iniciamos o ensino a distância, online. Muito trabalho para gravar aulas, explorar novas ferramentas e se fazer presente num ambiente virtual. Hoje, já tendo me acostumado com o novo ambiente, estou em regime estacionário com respeito às minhas aulas. Em alguns aspectos, tivemos ganhos: alguns alunos me comentaram que o material à disposição (gravações, slides , programas feitos em aula) ficou mais farto e com isso tiveram mais facilidade de estudar minha disciplina. Outros, mais particularmente alunos da graduação, tiveram maiores dificuldades quer seja pelo ambiente familiar não facilitado ou pelo acesso deficitário à internet. Estes mesmos motivos foram, de uma maneira geral, a razão da demora na volta às aulas (virtuais) nas universidades. Certamente teremos um enorme prejuízo na educação por conta da pandemia.

9. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.)?

Já fui um leitor bem mais voraz. Hoje em dia, confesso que as plataformas de streaming têm tomado meu tempo. :-| Fontes de informação unbiased são um novo problema ... antigamente eu assinava um jornal e o lia sem a desconfiança de hoje. Mas continuo dando uma espiada diária no jornal que assino e nas headlines de jornais estrangeiros (BBC, por exemplo), além do resumo das notícias do dia em uma lista de amigos (num aplicativo social). Revistas, só (eventualmente) as especializadas em vinhos, single malts e charutos (o Clube da Fumaça composto por algumas das pessoas mencionadas nesta entrevista está em quarentena, mas é bem ativo em tempos normais). Eu jogava xadrez no spéculo passado; hoje em dia, só brinco com os puzzles do aplicativo Chess , quando sobra um tempinho. Para relaxar gosto de preparar uma seleção no Spotify e dar uma caminhada. Tempos atrás eu gostava de correr, de duplas de vôlei e de tênis de mesa (aliás, estimado colega da USP que queira uma revanche, estou sempre a postos. ;-)

10. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

Aqui serei breve, faça de seu trabalho uma diversão e vá se divertir bastante, todos os dias! A engenharia é muito divertida. A pesquisa, para aqueles que a apreciam, melhor ainda. E vão te pagar para você se divertir.

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