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Entrevista · Memória da SBrT

Profa. Marta Bastos

Formada em Engenharia Elétrica – opção Eletrônica (UFPa, 1980), mestre em Engenharia Elétrica (UNICAMP, 1983) na área de Otimização e Pesquisa Operacional e doutora em Engenharia Elétrica (UNICAMP, 1991) na área de Confiabilidade de Software. Trabalhou como pesquisadora nos projetos Trópico do CPqD TELEBRÁS entre 1981 e 1996 nas áreas de Confiabilidade de Hardware, Tráfego Telefônico Teste de Sistema e Confiabilidade de Software. Foi Assessora da Qualidade do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações - CPqD entre 1996 e 1999, coordenando a adequação dos laboratórios para credenciamento INMETRO, a implantação dos requisitos da ISO 9001 e implantando Programa de Qualidade de Software. Foi responsável, de janeiro de 2000 a fevereiro de 2013, pela Gerência de Arquitetura Empresarial (até 2009 Gerência de Processos) na Diretoria de Soluções de Inteligência de Negócios do CPqD, onde desenvolveu mais de 160 projetos de Reorganização de Processos, Governança de Tecnologia e Arquitetura Organizacional para empresas dos setores de Telecomunicações, Energia, Governo e outros. Trabalhou no CTI - Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer de 2014 a 2016, no desenvolvimento de metodologia de avaliação de P&D e Inovação em Tecnologias da Informação e Comunicação. Atuou, ao longo do ano de 2017, em projeto para a UNESCO para desenvolvimento de políticas públicas de P&D e Inovação. Atuou como representante do Brasil na ISO - International Organization for Standardization - de 1995 a 2015, participando da elaboração das versões 2000 e 2008 das Normas de Qualidade ISO 9001 e dos Grupos Nacional e Internacional de Interpretações dessas normas. Foi professora do curso de Mestrado em Engenharia Elétrica da PUC-Campinas de 2002 a 2005, do curso de Especialização em Gestão de Sistemas Multimídia da Metrocamp em 2009. Foi Membro do Conselho Deliberativo da SBrT - Sociedade Brasileira de Telecomunicações nas gestões de 2000 a 2008 e de 2014 a 2018. Foi Tesoureira da SBrT nas gestões de 1996 a 1998 e 1998 a 2000 e presidente nas gestões de 2010 e 2012. Recebeu a indicação de Sócio Sênior em 2008 de Sócio Emérito em 2017.

INSTITUIÇÃO / CARGO
PUBLICADA
01 AGO 2020

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Eu não tinha uma escolha clara com relação à profissão. Sempre estive entre os melhores alunos do Colégio Moderno, em Belém do Pará, não exatamente porque gostasse de estudar, mas sim porque sou curiosa e gosto de aprender. Quando estava no Convênio, o meu professor de Física, percebendo que eu gostava muito dessa ciência que combinava matemática, natureza, curiosidade e método, passou a me levar aos saraus promovidos aos sábados pelos professores de diversas faculdades de Exatas na Universidade Federal do Pará (UFPa), onde ele cursava Engenharia Eletrônica. Virei frequentadora assídua, a mascote daqueles que viraram meus ídolos e decidi firmemente cursar Física. A poucos dias da inscrição para o Vestibular, no entanto, fui vítima de fogo cruzado, ficando entre meus pais, que pensavam que eu teria um campo de atuação muito restrito sendo professora universitária de Física e daquele grupo, encabeçado pelo respeitado professor José Maria Filardo Bassalo, da faculdade de Física, que dizia que o curso estava muito fraco naquela época. Resisti muito ao complô, e a melhor solução negociada entre todos foi o curso de Engenharia Eletrônica, que estava fortalecido pela volta de mestres e doutores da UNICAMP, e com ótimos professores visitantes (entre eles os professoeres Weiler Finamore e Hélio Waldman). Eu era a única mulher da turma, e sempre era escalada pelos colegas para negociações difíceis como, por exemplo, adiamentos de provas. Não consegui fazer estágio, pois as empresas, na época, só aceitavam homens. Lembro de um recrutador da Petrobrás que exigiu que me retirasse da sala para fazer sua apresentação sobre o programa da empresa. Meus professores tiveram que interceder perante a Universidade para que minha participação em projetos de pesquisa fosse aceita como estágio. Ser mulher num curso de Eletrônica era tão inusitado em Belém, na época, que eu tive que vestir um smoking para não destoar da turma na foto de formatura.

Tinha a certeza de que não gostava de hardware, mas o uso aplicado da Matemática me conquistou, e eu resolvi fazer mestrado em Eletrônica. No último ano, o professor Jurandir Garcez, da EE da UFPa, levou a mim e a mais dois colegas de turma com aspirações acadêmicas a conhecer o CETUC, o ITA e a UNICAMP, e nós três escolhemos esta última, pela qualidade do quadro de professores.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional? Deve ter havido momento difíceis nela, como a senhora lidou com eles?

A primeira dificuldade foi encontrar onde morar, em Campinas, onde cheguei em março de 1981. As imobiliárias não alugavam imóveis para mulheres solteiras sozinhas, e eu não tinha colegas mulheres com quem compartilhar. Enquanto procurava, fiquei dois meses hospedada na casa do professor Gervásio Cavalcante, conterrâneo que fazia doutorado na época, e a quem sou muito grata. Foi preciso financiar, pagando com 2/3 da bolsa de mestrado do CNPq, uma quitinete de 27m2 para poder me instalar. Fui a primeira orientanda de mestrado do Prof. Jurandir Fernandes, na equipe de Pesquisa Operacional da Engenharia Elétrica, e minha dissertação fazia parte do Convênio de Redes Digitais que a UNICAMP mantinha com a Telebrás, numa época em que o mundo das Telecomunicações estava se digitalizando. Desenvolvemos um conjunto de modelos para otimização da expansão de redes telefônicas locais. A equipe, comandada pelo Prof. Hermano Tavares, era muito produtiva e acolhedora, e esses foram anos em que aprendi e me diverti muito. Para fazermos nossas simulações matemáticas com a capacidade de processamento do DECsystem-10 do CPqD só para nós, entrávamos lá no fim do expediente, quando todos saiam, e passávamos as madrugadas trabalhando. Quando a compilação dava algum problema, ligávamos um radinho e dançávamos nos corredores antes de analisar o algoritmo. O ambiente de diversidade, liberdade, pluralidade, simplicidade e brilhantismo técnico me encantaram. Também vivi de perto, como candidata a única representante dos estudantes de pós-graduação no Conselho Diretor da universidade, a intervenção na UNICAMP, que foi um período marcante para todos os que estavam lá na época. Logo que terminei os cursos, ao final de 1982, fui convidada a gerenciar o convênio de Redes Digitais por parte do CPqD, agora como contratada pela TELEBRÁS, na área de Área de Garantia de Qualidade do projeto da central telefônica TRÓPICO RA.

Nesse período, além de cuidar do Convênio, trabalhei com testes de Sistema e na avaliação de confiabilidade das placas de hardware da central e coordenei grupo de definição de Indicadores de Desempenho de Comutação e de Software de todo o Sistema TELEBRÁS. Conclui o mestrado em outubro de 1983, mas continuava a cursar disciplinas na UNICAMP por puro prazer de aprender, originalmente sem a pretensão de terminar o doutorado. Tive minhas filhas em 1984 e em 1986, então o foco era a construção da minha família. Em 1988 o CPqD me propôs fazer a tese de doutorado em confiabilidade de software, um assunto novo na época, e de interesse para o projeto. Fizemos um arranjo em que o meu orientador seria o Professor Hermano Tavares, o coorientador o Professor Jorge Moreira, meu gerente na Área de Garantia da Qualidade de Sistemas e trabalharíamos em estreita cooperação com o LAAS (Laboratoire d' Automatique et d' Analyse de Systèmes) em Toulouse, França, referência mundial no assunto à época. Eu calculava e projetava a probabilidade de falha do software do TRÓPICO RA orientando a liberação das versões a campo, e meu trabalho científico tinha aplicação imediata no projeto, antes mesmo dos artigos serem publicados em congressos e revistas. Pesquisa aplicada, felicidade pura.

Graças ao trabalho em confiabilidade de software, fui convidada pela ABNT para coordenar o grupo de trabalho nacional de revisão da norma de Qualidade de Software e, a partir daí, participei da delegação brasileira que representava o Brasil na ISO/TC 176 Quality Management and Quality Assurance da ISO (International Organization for Stardardization) de 1995 a 2008. Esse trabalho foi muito gratificante, pois tive a oportunidade de conhecer países diferentes e profissionais extremamente qualificados de diversos setores, além de telecomunicações, e de aprender a arte da negociação de interesses internacionais. No CPqD, nessa época já privatizado, e não mais parte da TELEBRÁS, passei de pesquisadora de Telecomunicações a responder ao presidente como Assessora da Qualidade, trabalhando na certificação dos laboratórios e do processo de desenvolvimento de software.

Aí chegou o momento mais difícil de minha carreira. Fui designada para montar uma equipe de consultoria em processos operacionais de Telecomunicações, preparando as Operadoras para receber e utilizar da melhor forma os sistemas de software de operação de telecomunicações desenvolvidos pelo CPqD. Tive que dizer adeus à pesquisa, ao trabalho já com reconhecimento internacional na ISO e a desapegar dos resultados do trabalho de anos em Qualidade para o CPqD, que se concretizariam em breve. Levei mais de um ano para me recuperar e abraçar a nova carreira gerencial que se abria à minha frente. Só consegui equacionar essa dificuldade no meu coração quando comecei, em paralelo, a dar aulas no Mestrado Profissional de Gerência de Redes de Telecomunicações da PUC Campinas, o que me aproximou novamente da pesquisa.

A aceitação da nova realidade foi o que me permitiu fazer prosperar o trabalho de consultoria em Processos. De 2001 a 2013, gerenciei a equipe que foi responsável por mais de 160 projetos de P&D e de consultoria em Reorganização de Processos, Governança de TI e Arquitetura Corporativa. Nessa época, tivemos a oportunidade ímpar de conhecer a operação de praticamente todas as empresas de telecomunicações do país, que estavam se fundindo ou criando empresas celulares. A seguir, ampliamos nossa atuação para organizações dos setores Elétrico, Indústria, Financeiro, Ministérios, Governo Estadual e Municipal e fizemos projetos internacionais nos EUA, Angola e em países da América Latina. O trabalho que eu inicialmente demorei a aceitar foi o que me proporcionou uma vida profissional extremamente rica.

3. Que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT? A senhora foi presidente da sociedade, nessa experiência o que gostaria de destacar?

Participar de uma Sociedade científica propicia um ambiente de divulgação de trabalhos de pesquisa, de integração e de troca com outros grupos. Em especial, a SBrT, pois seus eventos e sua revista sempre foram respeitados por sua seriedade e qualidade técnica. Além disso, nos mantermos juntos e organizados nos permite ter voz e representação perante os órgãos de pesquisa de nosso país e interagir com sociedades internacionais congêneres.

Na presidência da SBrT procurei estimular os jovens a verem a Sociedade como uma referência para toda a sua vida profissional, pois é um ambiente que lhes oferece relacionamentos, apoio e oportunidades de crescimento. Para mim, foi assim, um espaço de individuação. Publiquei e revisei artigos, coordenei sessões, organizei eventos, ocupei diferentes cargos e recebi, sempre com gratidão a homenagem pelos 20 anos da SBrT, e o reconhecimento como Sócio Sênior em 2008 e Sócio Emérito em 2017.

O meu maior desafio na presidência da SBrT foi coordenar duas Diretorias formadas por cientistas brilhantes, da maior relevância no cenário de Telecomunicações, e por quem eu tenho a maior admiração. Para isso, eu me apoiei na competência e na vivência deles na Sociedade, e procurei contribuir com a visão de organização que eu trazia de fora do mundo acadêmico. Essa parceria deu muito certo e penso que conseguimos juntos melhorar a SBrT em muitos aspectos.

4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

Sempre fez parte natural do meu trabalho publicar e revisar artigos em revistas e eventos de diversas sociedades científicas, mas só em 1989 apresentei o primeiro artigo no 7º Simpósio da SBrT. Dali em diante, passei a participar de quase todos os seus eventos, como autora ou revisora.

Um dia eu estava na fila do banco e Hélio Marcos Machado Graciosa, na época Diretor no CPqD e Presidente da SBrT, que também esperava ser atendido, me perguntou quais eram os meus planos para setembro de 1995, dali a quase dois anos. Como respondi que não tinha, ele me convocou para cuidar dos Arranjos Locais do 13º SBrT, cuja coordenação geral seria feita por ele, com coordenação técnica do professor João Marcos Travassos Romano, da UNICAMP. Nesse evento, fizemos uma inovação ousada, que foi hospedar todos os participantes no hotel do simpósio, em Águas de Lindóia. O trabalho foi grande, pois fizemos tudo sozinhos, sem o auxílio de uma empresa de eventos, por falta de recursos da Sociedade. O meu envolvimento nesse evento foi tão grande, que a brincadeira preferida das minhas filhas passou a ser, por imitação, a de organização de congressos. Mas isso resultou num ambiente descontraído e de muita integração, do qual todos lembramos até hoje e ainda dobramos o caixa da SBrT. Acho que esse foi um dos motivos pelos quais fui convidada a participar como Tesoureira nos dois períodos sob a gestão do professor José Mauro Pedro Fortes, de 1996-97 e na de 1998-2000. Em dezembro de 1999, no Rio de Janeiro, a SBrT viabilizou com muito sucesso a IEEE Globecom, a maior e mais prestigiada conferência internacional na área de telecomunicações. A conferência teve como Presidente o Professor José Roberto Boisson de Marca da PUC-Rio e eu participei como coordenadora de publicações. A partir daí, fiz parte do Conselho da SBrT em diversas gestões, de 2000-2006, e de 2014-2016.

Recebi a confiança dos associados da SBrT para presidir a Sociedade por dois períodos, de 2010-2011 e 2012-2014, o que para mim foi uma honra. O primeiro evento da gestão, o International Telecommunication Symposium 2010 realizado em Manaus, teve problemas financeiros, e percebemos que precisaríamos estruturar mais a organização de simpósios, a revista e as finanças da SBrT. Nessa época eu já estava afastada da pesquisa e do mundo acadêmico, então procurei contribuir com a experiência de planejamento e de estruturação de organizações que trazia do trabalho de consultoria do CPqD. Fiz muitas mudanças na Sociedade, e agradeço o apoio que recebi dos colegas da Diretoria e do Conselho, pois foram quebrados diversos paradigmas.

5. Considerando que a SBrT é um fórum que reúne profissionais de Telecomunicações e Processamento de Sinais no Brasil, alguma ideia de como podemos ampliar a abrangência da nossa sociedade?

Vivi de perto as discussões que levaram a essa ampliação e vejo com naturalidade a evolução da Sociedade, pois ela segue as transformações não só da ciência e da tecnologia, como também de seus campos de aplicação. Não é raro percebermos que uma técnica desenvolvida inicialmente para responder a uma questão de telecomunicações tem grande utilidade na medicina ou na geologia. E, assim, o foco de pesquisa vai sendo ampliado em algumas áreas e restringido em outras, conforme a necessidade da sociedade, a quem a pesquisa, na minha opinião, deve servir.

6. Quais suas referências profissionais?

Institucionalmente, minhas referências são o CPqD, a UNICAMP, a ISO, o LAAS e a UFPa. Meus professores de faculdade da UFPa que me ensinaram a amar o conhecimento e a admirar e a aprender com quem o tinha. Meus orientadores, Jurandir Fernandes de mestrado, Jorge Moreira de Souza, Hermano Tavares e Karama Kanoun de doutorado que me desafiaram a dar o meu melhor, mas ao mesmo tempo me apoiaram e encorajaram nessas aventuras. Pierre F. Caillibot, Denis Pronovost e Eduardo Wohlgemuth me ensinaram a liderar pelo exemplo e com leveza em situações complexas de negociação internacional, nos grupos de trabalho da ISO/TC 176. Na SBrT, os companheiros de Diretoria e Conselho, e especialmente os presidentes que vieram antes de mim, que me ajudaram com gentileza e sabedoria sempre que precisei. Os colegas de trabalho no CPqD, companheiros de tantas aventuras, foram, e ainda são, o meu grupo de apoio profissional.

7. Como a senhora tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

Eu me aposentei do CPqD em julho de 2013. Depois disso, integrei por dois anos a equipe de pesquisa do Centro de Pesquisa Renato Archer – CTI para desenvolver metodologia de caracterização e avaliação de P&D e Inovação em software, e nesse projeto já trabalhava em casa a maior parte do tempo. A seguir, em 2017, participei de um projeto para a UNESCO para desenvolvimento de políticas públicas de P&D e Inovação que foi executado quase que totalmente com a equipe em home office. Tive que me adaptar rapidamente, a partir do ambiente corporativo no CPqD, no qual as reuniões duravam no máximo uma hora, as pessoas e os telefones disputavam a minha atenção ininterruptamente o dia todo e os compromissos brotavam na agenda para o silêncio de minha casa e o gerenciamento do meu próprio tempo. Assim, a pandemia não mudou muito os meus hábitos de trabalho. O que mais sinto falta é da troca de ideias, das piadas, do café com as pessoas. A convivência nos enriquece. Mas vejo a pandemia como uma ótima oportunidade para quem trabalha com pesquisa. É o momento de atualizar estudos e de escrever aqueles artigos adiados.

8. A senhora tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.)?

Sempre encontrei inspiração nos hobbies das mulheres fortes com quem tive o privilégio de conviver em minha família e que deixaram como legado para as próximas gerações as peças maravilhosas que elaboraram. Faço crochê desde criança, que aprendi com minha mãe e com minha avó paterna, e passei por períodos de pintura em porcelana, patchwork, macramê, frivolité, bordado livre e outros. Os trabalhos manuais são a minha forma de acalmar a mente.

Fui uma criança que tinha que se esconder da mãe para ler, de tanto que eu gostava. E leio vários livros ao mesmo tempo. As preferências são ecléticas e podem ser bem exemplificadas pelos livros que estou lendo atualmente: Impossibility, the Limits of Science and the Science of Limits, de John D. Barrow, The Selfish Gene, de Richard Dawkins, e Do Mil ao Milhão, de Tiago Nigro. Também gosto de aprender línguas, pela liberdade de viajar e poder me comunicar com as pessoas e de ler em inglês, francês espanhol e alemão.

Como trabalho voluntário, presido atualmente a APOS – Associação de Aposentados da Fundação CPqD e participo da Diretoria da FENAPAS, que é a Federação de Aposentados do Setor de Telecomunicações, em defesa dos nossos direitos.

9. Há muitas ações para aumentar a participação feminina na engenharia, sendo a senhora é um exemplo de sucesso, o que diria para uma jovem que está iniciando na carreira?

Tive dificuldades mais por ser a única ou mesmo a primeira mulher em diversas posições em que trabalhei, mas isso me deu a oportunidade de ser quem eu era, uma vez que não tinha referências para seguir.

O mundo corporativo de engenharia e tecnologia ainda é predominantemente masculino, então temos que garantir processos justos, e que as mulheres tenham apoio e condições de se desenvolver mesmo em situações que ainda não são perfeitas em igualdade. Esse mundo ainda é, mas não precisa continuar assim.

Encontre mentores, pessoas mais experientes em seu campo de atuação em quem você confie e converse constantemente com eles sobre o seu desenvolvimento. Estude e aprenda sempre, e acredite em você. Apoie seus colegas e, especialmente, outras mulheres, formando sua rede de suporte dentro e fora do seu ambiente de trabalho. Mostre a seus colegas como é importante eles acolherem e integrarem vocês.

Para mudar o mundo, você precisa ser a mudança que quer ver nele. Isso requer muito preparo, vontade, energia, confiança, resiliência e perseverança? Sim, mas se você reparar, são as mesmas competências requeridas para ser uma Engenheira Eletrônica, então você já as tem. Lute por você, pelas que vieram antes e pelas que virão depois.

O meu sonho é somar as nossas características femininas a esse mundo masculino da Engenharia, para torná-lo um lugar mais diverso, mais rico e mais feliz para todos nós, homens e mulheres.

10. Imaginemos que existe um mecanismo que nos devolve a juventude, mantendo a experiência, considerando que isso acontecesse hoje, que caminhos profissionais (ou pessoais caso queira incluir na resposta) a senhora trilharia?

Eu tive muitas profissões a partir da Engenharia Eletrônica e trabalhei em diversas organizações, ainda que lastreada por 30 anos no CPqD. Tive que fazer muitas escolhas, mas em cada uma delas eu tinha clareza do que estava abrindo mão, portanto não tenho arrependimentos. Segui o caminho por onde eu achava que seria mais feliz, dadas as restrições das circunstâncias.

Sempre encontrei um jeito de fazer o que eu queria, fosse em paralelo ou de maneira alternativa. Assim, a SBrT foi um espaço onde pude acompanhar a vida acadêmica que eu planejava seguir quando jovem, e também aplicar o conhecimento na prática, como eu sempre gostei, no âmbito dos projetos do CPqD.

Na vida profissional, aprendi que abraçar a realidade possível, o trabalho que se nos apresenta e fazê-lo da melhor forma que você pode, abre espaço para possibilidades nunca imaginadas.

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