Desde uns 11 anos acompanho as atividades relacionadas à exploração espacial, as primeiras naves de telemetria de Vênus e Marte, as Mariners, e sempre me interessei pela tecnologia ligada à transmissão de informação nas grandes distâncias desses planetas. Isto despertou meu interesse em fazer engenharia elétrica e, em particular, estudar as telecomunicações.
Nasci no Rio de Janeiro e cursei lá os anos de primário e o primeiro ginasial (Colégio Pedro II). Meus pais foram para Brasília no início dos anos 60 e por lá eu terminei o ginásio, no GPP-Caseb. Na sequência fiz o Científico no CIEM, um colégio ligado à Faculdade de Educação da UnB. No último ano fui para um ano de intercâmbio pelo American Field Service (AFS) em Morristown, NJ, EUA, estudando na Pingry School. De volta ao Brasil, fiz Engenharia Elétrica (EE) na UnB e o Mestrado em EE na Unicamp. No mestrado tive a orientação do Prof. David Rogers e a co-orientação do Prof. Attílio Giarola. Durante o mestrado, fui assistente de ensino da disciplina Teoria Eletromagnética (EE540), acompanhando o Prof. Ricardo Galvão, que havia voltado de seu doutorado no MIT. Em seguida voltei aos EUA para o doutorado em Stanford, onde conheci o Prof. Thomas Cover, meu orientador e incentivador na área de Teoria de Informação. O Prof. Cover fazia reuniões semanais com seus alunos de EE e de Estatística, onde problemas em aberto de Teoria de Informação e áreas relacionadas eram debatidos com informalidade. Essas reuniões eram muito úteis para motivar e inspirar seus alunos de pós-graduação.
Meu primeiro emprego após o doutorado foi como pesquisador do INPE, o Instituto de Pesquisas Espaciais, em S. J. dos Campos, SP (1983-1988). Trabalhei na MECB, a Missão Espacial Completa Brasileira, que preparou uma bem sucedida missão de dois satélites retransmissores de dados ambientais. No fim dos anos 80 fui trabalhar na General Electric Corporate R&D Center, emSchenectady, NY, EUA, em áreas de telecomunicações e imageamento médico. Nos anos 90, passei um período como Senior Research Associate no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, estudando sistemas simplificados de transmissão de imagens usando a ICT (Integer Cosine Transform).
Em seguida, voltei ao Brasil para uma posição na Unicamp, que iniciava o novo curso de engenharia de computação, em 1995. Nesta época a Faculdade de Engenharia Elétrica passou a ser a Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). A faculdade provê um excelente ambiente de trabalho que reúne atividades de ensino por talentosos colegas, de pesquisas de ponta em diversas áreas de engenharia elétrica e de computação, e de trabalhos de extensão com vistas a beneficiar empresas parceiras e a sociedade em geral. Fui diretor da FEEC no período de 2007 a 2011, período que considero de grande importância em minha trajetória profissional, pelo aprendizado que me permitiu adquirir com respeito às relações interpessoais e à organização da universidade. Nesta empreitada tive a colaboração inestimável do José Raimundo de Oliveira como diretor associado.
Na FEEC pretendo concluir minhas atividades profissionais.
A motivação para este resultado surgiu numa das reuniões semanais coma equipe do Prof. Cover. Um de meus colegas, o Chris Heegard, estava estudando a codificação para memórias com defeitos conhecidos dos transmissores. O problema do dirty paper se constitui numa versão contínua, com ruído gaussiano, do problema estudado pelo Chris em conjunto com o Abbas El Gamal, que iniciava uma carreira como professor de Stanford. Fiquei entusiasmado com o problema e passei alguns dias pensando em alternativas de codificação, até que me ocorreu usar uma variável aleatória que combinava linearmente a informação a ser transmitida com o ruído conhecido (não causalmente) pelo codificador. O resultado foi a conhecida expressão da capacidade do canal sem qualquer redução causada pelo ruído adicional. Este resultado foi obtido após a meia noite e me lembro que foi muito difícil pegar no sono naquela noite.
De início o resultado foi recebido como uma curiosidade matemática. Foi a partir de 1999 que começaram as contribuições em aplicações de marcas d’água, steganografia, e codificação de broadcast e do canal de downlink de telefonia sem fio, e que garantiram uma maior disseminação do artigo.
Meu pai (Arnoldo) sempre foi um grande incentivador do trabalho de pesquisa. Perdi papai no último dia 4 de julho. Ele teve uma vida plena de 93 anos. Foi neuro-cirurgião e neurologista nos anos 60 em Brasília, após uma especialização em Freiburg, Alemanha, em traumatismos cranianos. Trabalhou por muitos anos como neuro-cirurgião e neurologista. Se interessou por medicina ortomolecular e escreveu um livro sobre o Magnésio. Em alguns meios era chamado de dr. Magnésio. Mais recentemente concluiu um livro sobre a Taurina, um hormônio que contribui para retardar o processo de envelhecimento. Este livro deverá ser lançado em breve.
Minha mãe (Lucia) também contribuiu com seus exemplos de coragem e generosidade, ambos de grande importância para a atividade profissional, em relação a perseverar e a compartilhar.
Tive excelentes professores e colegas de pesquisa. Além do Prof. Thomas Cover, gostaria de mencionar alguns nomes que me veem à mente, como o Helio Waldman, o Dalton Soares Arantes, o José Mauro Fortes (aposentado da PUC-Rio e colega de doutorado em Stanford), o próprio Chris Heegard que foi professor em Cornell, o Abbas El Gamal, os Profs. Te Sun Han e Rudolf Ahlswede (que nos visitou em Stanford), o Aaron Wyner (do Bell Labs, que também visitava Stanford com frequência).
Mais recentemente tive boas colaborações com o Rico Malvar, da Microsoft, e com o Chandra Nair, da Chinese University of Hong Kong. Ainda hoje tenho trabalhado em parceria com o Chandra Nair em busca da região de capacidade do canal de interferência Gaussiano em Z, um problema que permanece em aberto desde sua formulação original nos anos 70, e que continua a atrair nossa atenção.
Tenho também trabalhado com o José Cândido da Silveira Junior, e estamos escrevendo um llivro, um guia ilustrado para a teoria de informação.
Quero mencionar também as colaborações com meus alunos e minhas alunas de iniciação científica, mestrado e doutorado que sempre se destacaram como verdadeiros parceiros de trabalho e se revelaram como excelentes professores. Agradeço a eles e a elas a oportunidade de colaboração e de aprendizado mútuo.
A SBrT é uma organização que estimula a pesquisa e o desenvolvimento em áreas de ponta das telecomunicações e de processamento de sinais. Ao se aproximar de seus 40 anos, nossa sociedade pode se orgulhar de um grande legado de suporte ao ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento nestas áreas. Por todos esses anos, a sociedade e seus simpósios foram uma importante referência como fórum para a apresentação e o debate de novas ideias geradas por pesquisadores nacionais e internacionais.
de nos contar?
Estava regressando ao Brasil para trabalhar no INPE em 1983, ano do primeiro SBrT. Tive um trabalho no simpósio sobre limitantes inferiores e superiores da equivocação em canais gaussianos, um resultado que usa a concavidade da potência de entropia com ruído adicionado, fruto parcial de meu doutorado.
Os simpósios nacionais e suas periódicas apresentações como simpósios internacionais (os ITS) sempre foram ambientes propícios para o congraçamento de colegas pesquisadores do Brasil e do mundo. Tive muita satisfação em participar de algumas atividades de organização dos simpósios. Em conjunto com o Aydano Carleial participei da coordenação de programa do SBrT-1985 em SJCampos. Fui o tesoureiro do ITS-1998 em São Paulo, no Maksoud Plaza, ocasião em que tivemos um grande retorno financeiro para a sociedade, mesmo com as taxas associadas à parceria com o IEEE. Mais recentemente, com o Aldebaro Klautau, participei da coordenação de programa do SBrT-2016, em Santarém.
Eu e minha mulher gostamos de viajar. Gostamos também de cinema e teatro. Temos uma casa de montanha em Monteiro Lobato, SP, e gosto das belas vistas e da tranquilidade do lugar. Temos dois filhos, um professor de filosofia (Bruno) e um violinista (André) e gostamos de fazer reuniões familiares sempre que possível. Meu gosto por música é de espectro largo. Gosto de música antiga (Bach), e de música clássica (Chopin). Gosto também de ópera (Puccini), de rock (Elvis, Pink Floyd), jazz (Louis Armstrong, Diana Krall), soul (Ray Charles), country (Willie Nelson), choro (Jacob do Bandolim), e de samba (Cartola e Lupicínio).
Sou um entusiasta e um defensor da democracia. Para informações gerais vejo a TV Cultura, a CNN (original), e leio a Folha de SP. Também vejo o New York Times (online). Gosto de jogar Scrabble (Palavras Cruzadas), em inglês ou português. Costumo jogar Termo, Dueto e Quarteto online. Coleciono nomes de pessoas com todas as vogais. Os nomes masculinos são mais fáceis de achar (Aurélio, Laurentino, Gaudêncio, Eustáquio, e outros), mas só conheço um nome feminino (Eudóxia, quer dizer de boa fama). Nomes de cidades também não são comuns. Há Juazeiro (CE) e Cajueiro (AL). Se descobrirem outros, mandem para mim. Gosto também de estudar línguas, algo que herdei do papai. Tenho me aventurado no italiano.
Não sou um leitor rápido. Gosto de Hermann Hesse, Hemingway, Machado de Assis, e Guimarães Rosa. Estou lendo “Essa Gente”, do Chico Buarque. Também aprecio um bom Cabernet Sauvignon e um bom Malbec.
Descubra suas paixões. Qual a sua real motivação na engenharia? Problemas de telecomunicação, de automação e controle, de eletrônica, de energia elétrica, de computação? Tente descobrir algo que seja novo e inspirador. Isto pode ser uma motivação para toda a sua carreira.
Fora isso, recomendo uma boa caixa de ferramentas, com uma base sólida das equações de Maxwell, análise de Fourier, cálculo vetorial, e álgebra linear. Há de permitir bons voos.
Não há dúvida que a área de Aprendizado de Máquina vai servir de farol para nortear futuros desenvolvimentos tecnológicos. Algo que considero essencial seria a evolução de algumas abordagens heurísticas e empíricas para um embasamento teórico formal, possivelmente baseado em inferência estatística e teoria de informação.
Desejo grande sucesso à sociedade e às novas gerações de sócios. Que possam continuar a tradição de encontros inspiradores, amistosos, e construtores de uma ampla rede de engenheiros e cientistas que se tornem bons parceiros de pesquisa e desenvolvimento e de colaborações técnicas.
Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Rua Marquês de São Vicente, 225 — Rio de Janeiro, RJ.