Ingressei na FEEC-UNICAMP como aluno de graduação em 1974 e me formei em 1978. Trabalhei no CPqD-Telebrás, IBM, e Elebra, de 1978 a 1985, ao mesmo tempo em que cumpria os créditos e desenvolvia a dissertação para o meu Mestrado, defendido em 1983. Desliguei-me das empresas em que trabalhava para fazer o meu Doutorado na University of Essex, Inglaterra, em 1985, tendo obtido o título de Ph.D. em 1988. Estabeleci-me na FEEC-UNICAMP em 1988 através de uma Bolsa de Recém-Doutor do CNPq e, através de Processo Seletivo, ingressei na FEEC em 1989 como Professor Assistente Doutor na Parte Especial do Quadro Docente da Unicamp. Passei à Parte Permanente do Quadro Docente em 1990, através de Concurso Público. Ainda através de Concursos Públicos, obtive os títulos de Professor Livre Docente em 1993 e de Professor Adjunto em 1997. Ascendi ao cargo de Professor Titular em 1999 através de Concurso Público.
Desde criança, minha intenção era fazer Medicina, não sei por que motivo, talvez pelo fato de ser de família Libanesa, em que a profissão de médico é muito valorizada. De fato, eu tinha bastante curiosidade sobre conhecer o corpo humano e sua dinâmica. Também, desde criança, eu me divertia com construções e montagens de brinquedos rudimentares a partir de sucata e, mais tarde, com algum experimento simples de eletricidade extraído de algum livro de ciências. Num desses experimentos, eu e um colega idealizamos e construímos dois aparelhos de telefone que se comunicavam entre si e que também podiam ser integrados perfeitamente à rede telefônica. Ainda, à época do auge da exploração espacial, criamos um grupo de estudos para projetar um foguete. Esse grupo tinha estatuto, bandeira, reuniões semanais de estudos, etc. Projetamos, mas não construímos o foguete, contudo chegamos a construir um pequeno carro-foguete. O carro até que funcionou, precariamente, e felizmente não explodiu. Enfim, esse tipo de atividade me entusiasmava.
No final do ensino médio, à época chamado científico, precisava decidir entre Medicina e Engenharia, as duas disciplinas que me encantavam. A minha decisão por Engenharia foi quase que um jogo de moedas. Passei a pender mais por Engenharia porque sentia muito sono ao estudar ecologia, o que não acontecia com matemática e física. Nunca saberei o que teria acontecido se tivesse optado por Medicina. Para ser franco, continuo muito curioso sobre essa disciplina. (Tenho seis filhos, cinco médicos e uma cursando Medicina.)
Percebo que as coisas não acontecem como planejamos, pelo menos para mim. Quando me formei em Engenharia Elétrica, minha intenção era trabalhar com rádio e circuitos analógicos. O emprego no CPqD (veja a resposta à questão seguinte) me levou a trabalhar com circuitos digitais num dos projetos mais ambiciosos de Telecomunicações do Brasil – as Centrais Trópico de Comutação Digital. Foi a sorte! Da mesma forma, quando planejei fazer o meu Doutorado na Inglaterra, minha intenção era trabalhar com centrais telefônicas digitais, o meu tema de trabalho no CPqD. Chegando à University of Essex, o meu suposto orientador deixou a Universidade para trabalhar na HP e eu fiquei sem orientador. Fui convidado a fazer parte de um grupo de pesquisas financiadas pela British Telecom para projetos na área de Telefonia Celular. Aceitei o convite sem ter a noção do que se tratava. O meu orientador passou a ser Prof. Kenneth W. Cattermole, umas das pessoas mais admiráveis e inteligentes que conheci. Foi a sorte! Passei a trabalhar com Comunicações Sem Fio em diversos aspectos, desde tráfego a caracterização de canais. Assim, estou em Comunicações Sem Fio desde os seus primórdios.
Comecei como estagiário do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) da Telebrás em 1977, portanto na própria fundação do CPqD, sendo, portanto, um dos seus pioneiros. Fui contratado como engenheiro em 1978, ano de minha formatura na FEEC. No CPqD participei de um dos maiores projetos de engenharia de telecomunicações do Brasil: a Família Trópico de Centrais por Programa Armazenado Temporal - CPA-T. A CPA-T foi o carro-chave do CPqD-Telebrás do final da década de 1970 a meados da década de 1980, envolvendo, inicialmente, dezenas, e, depois, centenas de engenheiros e profissionais de diversas especialidades. Uma CPA-T é uma central telefônica totalmente digital fazendo uso de tecnologia de ponta à época. Participei ativamente na concepção, desenvolvimento, construção, integração, teste, e transferência para a indústria da primeira central telefônica digital do hemisfério sul, a Trópico R, tarefas que envolveram ambos hardware e software. O país passava por um momento ímpar de incentivo à produção de tecnologia nacional, e tive o privilégio de viver este momento. O período no CPqD proporcionou um crescimento profissional notável, com projetos de tecnologia de ponta equiparada àquela produzida por gigantes do setor como Ericsson, Lucent, Nortel e outras. Da concepção à transferência de tecnologia para a indústria, esse período de crescimento profissional parecia ter-se esgotado, e, depois de algum tempo, senti a necessidade de um maior aprimoramento. Já com o Mestrado terminado ainda no CPqD, parti para o Ph.D. na Inglaterra. Por um lance de sorte, fui convidado a participar de um novo projeto, algo incipiente em todo o mundo: a telefonia celular. O projeto era financiado pela British Telecom. Aqui também vivencio a interação Academia-Empresa. Assim, também nesse setor, i.e., telefonia celular, tive o privilégio de estar presente desde o início dessa incrível revolução tecnológica. Estou, portanto, em Comunicações Sem Fio desde os seus primórdios. De volta ao Brasil, tem início a minha vida acadêmica, agora como Recém-Doutor com bolsa do CNPq no Departamento de Comunicações da FEEC. Da bolsa à efetivação por concurso até galgar ao posto de Professor Titular foram longos, árduos, e profícuos anos.
Felizmente, desde o início, como docente da Unicamp, tenho participado de projetos de pesquisa, de implementações práticas e de atividades de consultoria com inúmeras empresas de telecomunicações, no Brasil e no exterior. Assim, mesmo em aulas e pesquisas teóricas, tento incluir na teoria as mais variadas situações práticas vividas ao longo de minha carreira.
Estando em Comunicações Sem Fio, à época chamada de telefonia celular, percebi que não havia literatura especializada para uma disciplina na área. Os poucos livros disponíveis dificilmente poderiam ser adotados como texto em um curso. Eram árduos e muito específicos. Engajei-me, dessa forma, já no início da minha carreira na FEEC, em um projeto ousado de escrita de um livro internacional que pudesse ser usado como texto na área de Comunicações Sem Fio e que abordasse os mais variados, amplos, e importantes tópicos. Nasceu o meu primeiro livro: Foundations of Mobile Radio Engineering , CRC Press, 1993. Esse livro, como o nome indica, trata dos fundamentos das Comunicações Sem Fio. Foi escrito em uma época em que podiam-se contar nos dedos os livros na área (eram dois ou três). De fato, esse foi um livro pioneiro, o primeiro propondo uma estrutura didática de um curso amplo em Comunicações Sem Fio, após o qual vários outros seguiram com a mesma abordagem. Até então, os poucos livros da área tratavam Comunicações Sem Fio como um tópico de pesquisa. Após este, outros vieram em minha carreira. Esse livro, porém, constituiu um marco em minha vida acadêmica, abrindo-me oportunidades diversas.
Minha primeira referência, não poderia deixar de ser, foi o meu pai, libanês de uma aldeia do norte do Líbano de nome Jdideh. Meu pai não poderia ser chamado de analfabeto porque aprendeu a ler, escrever, e a aritmética, mas por conta própria. Nunca frequentou um banco de escola. Ele perdeu o pai antes do próprio nascimento e, desde muito cedo, como arrimo de família, teve de trabalhar para ajudar a mãe e os irmãos. Casado com minha mãe, e com duas filhas praticamente recém-nascidas, minhas irmãs mais velhas, migrou aos 35 anos, em busca de oportunidades, sem saber uma palavra de Português. No Brasil, trabalhou como mascate e depois estabeleceu um comércio de secos e molhados e prosperou, criando seis filhos, sobreviventes dos dez tiveram. Dele, tenho o exemplo de humildade, mansidão, resiliência, perseverança, e dedicação, valores caros em qualquer atividade profissional e, de fato, na vida. Dedicou a vida ao trabalho e à família, exaurindo as suas forças para a educação dos filhos. A ele devo o incentivo ao meu Doutorado na Inglaterra. Quando todos tentavam nos demover do nosso intento, a mim e à minha futura esposa, também engenheira – o intento de largar os nossos empregos estáveis e excelentes salários para vivermos de uma bolsa de estudos, sem garantia de emprego na volta - meu pai, do alto de sua iliteracia e num Português arrastado e cheio de sotaques, disse: “Meus filhos, larguem tudo e vão.”
Minha outra referência foi o meu orientador Prof. Kenneth W. Cattermole. Prof. Cattermole foi uma das mais admiráveis e inteligentes pessoas que conheci. Um dos pioneiros no desenvolvimento da técnica Modulação por Código de Pulso – PCM –, é autor do livro Pulse Code Modulation, referência fundamental na área. Serviu no Corpo de Engenheiros da Segunda Grande Guerra antes de trabalhar na indústria no desenvolvimento de equipamentos. Partiu da indústria para a Academia – University of Essex –, onde foi responsável pela fundação da cadeira de telecomunicações. Combinava um profundo conhecimento de matemática e soluções de problemas práticos com incomparável destreza. Apesar de toda essa admirável bagagem, era humilde ao extremo. A ele devo a proposta e a semente de meu tema de trabalho de Doutorado e a inspiração para escrever livros.
As sociedades científicas reúnem os pesquisadores ativos em áreas de conhecimento de ponta. Nesse sentido, no Brasil, a SBrT é a nossa referência em telecomunicações. E a SBrT tomou uma dimensão respeitável, reunindo pesquisadores renomados, ativos não só aqui mas em todo o mundo. Um dia, o saudoso Professor Giarola, a quem eu devo a leitura do meu livro Foundations, e uma das maiores referências em antenas, logo no início de minha carreira disse: “Se quiser prosperar, participe das sociedades científicas e de seus congressos.”
de nos contar?
Minha primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações foi o SBrT 1989 (à época SBT) de 3 a 6 de Setembro de 1989, Florianópolis, SC. E nesse mesmo SBrT, um episódio digno de nota. Era recém-doutor, recém chegado da Inglaterra, e me convidaram a presidir uma sessão técnica onde também apresentaria meu trabalho. Nunca havia presidido uma sessão técnica em congresso. Queria dar o melhor de mim e fazer também uma boa apresentação. Sala lotada e eu muito nervoso. A sessão transcorreu muito bem, da mesma forma a minha apresentação. Mas, devido ao meu nervosismo, suei como uma bica. Terminada a sessão, fui espairecer-me fora do hotel, que fica perto da Ponte Hercílio Luz. Resolvi fazer uma caminhada sobre a ponte, apreciando o local. Ventava muito, vento frio, e eu, muito suado. Como consequência peguei uma gripe bravíssima, com febre e dor de garganta. Tudo bem, não fosse o concurso Público que eu deveria enfrentar, em seguida, para ingresso na FEEC. Fiz o concurso muito doente. Felizmente, deu tudo certo.
Outro evento interessante foi quando Prof. Paul Jean (Poli-USP) e eu organizamos o International Telecommunications Symposium , o SBrT Internacional 1998, 9 a 13 de Agosto de 1998, São Paulo SP. O local foi o Maksoud Plaza. Só que no dia anterior, o Hotel foi palco de um evento exótico, o leilão de avestruzes, as avestruzes presentes no local. O cheiro que essas aves deixaram foi insuportável mesmo. Como seria o ITS no dia seguinte? Pobre dos funcionários que passaram a noite tentando limpar o local e amenizar o cheiro do ambiente. Para nós, que sabíamos do ocorrido, o cheiro nunca se dissipou em todo o evento. Nenhum participante, porém, reclamou (do cheiro, pelo menos).
Vejo a chegada do 5G como a chegada de mais uma tecnologia como aquelas que vi anteriormente. Estou nisso desde os primórdios do advento das comunicações sem fio. Percebo que antes que se consolide a implementação de uma tecnologia já se promete mundos e fundos de uma próxima. Foi assim com 1G, 2G, 3G, 4G, e assim o será com 5G, 6G, etc. O que acontece, de fato, é que nunca a tecnologia chega com o que se promete. Chega com features muito aquém daquelas que se esperam. E aquilo que se espera para a tal tecnologia prometida acaba se consolidando na próxima promessa, no caso 6G. Mas, sem dúvida, será um avanço. Por outro lado, infelizmente, a ideia de uma nova tecnologia provoca um alvoroço na comunidade e, para publicar, parece-me que se torna mandatório incluírem-se aplicações com a tal tecnologia, mesmo que apenas superficialmente. Eu até brinco em minhas aulas que 5G já está incrivelmente ultrapassado; 6G é um tema batido; agora temos de escrever um White Paper para 8G, porque, para 7G, já deve ter um em submissão.
Acho que como todos: aulas remotas e, infelizmente, menor interação com colegas e alunos. Isso é ruim. Perde-se o ritmo que as atividades presenciais naturalmente nos impõem. Mas também é bom, pois descobre-se um outro mundo do nosso lado e que a gente nem percebia. Tem sido um período de largo aprendizado em que pondero melhor sobre o que é realmente importante.
Por uma boa parte da minha adolescência e juventude, e um pouco da fase adulta, fui locutor de rádio. Apresentava programas de música, noticiário, gravava comerciais, chamadas de programas, etc. Foi um período incrivelmente divertido, do qual lembro-me com muita saudade. Fora isso, gosto muito de ouvir música, nenhum estilo ou época em especial. Aprecio músicas antigas, modernas, clássicas, e Rock in Rio (mas fujo de aglomeração). Gosto ainda de ler sobre filosofia e religião. Perto desse incrível mistério que é a vida, as coisas técnicas com as quais lidamos são quase nada, parecem brincadeira. Esse mistério me fascina.
Quando estava na faculdade, não via a hora de me formar e “botar a mão na massa.” Estava cansado de tanta teoria. Formando-me, fui logo contratado e, de fato, “botei a mão na massa.” E que “massa!” O projeto Trópico, como já narrado anteriormente. Ao mesmo tempo, enquanto trabalhava, fui fazendo cursos de pós até concluir todos para um Mestrado. E aí veio o Mestrado. De novo, senti a necessidade de continuar estudando, e, mais tarde, parti para o Doutorado. Meu conselho é o seguinte: não abandonem os bancos da Academia. Faz muito bem, tanto para quem se senta no banco – o aluno – quanto para quem está no palco – o professor. O aluno deverá ver coisas novas e o professor será desafiado com problemas práticos vividos por eles. O Mestrado ou o Doutorado podem vir como consequência natural disso, mas não necessariamente. O importante é essa saudável interação indústria/Academia. Com esse mesmo raciocínio, para quem está na indústria, seria ótimo fomentar projetos de pesquisa na Academia. E para quem está na Academia, procurar a indústria com intuito de oferecer seus préstimos através de consultoria e/ou projetos. É uma interação extremamente saudável. Estive na indústria e estou na Academia. E desde que me fixei na Academia, sempre mantive contatos com a indústria através de projetos de pesquisa e consultorias. Tenho um imenso respeito por esses profissionais. Há uma competência incrível na indústria que, muitas vezes, não é conhecida na Academia. Vale muito a pena a interação.
No livro que o Prof. Waldman e eu escrevemos – Telecomunicações: Princípios e Tendências – temos um capítulo final intitulado “Bola de Cristal”. Lá, a gente brinca com a questão de previsões. Sim, pode-se chamar de brincadeira. Gosto muito de ler sobre previsões porque nada do que se prevê acontece. São o que popularmente se chama de “chute”. O que a gente consegue fazer é conjecturar sobre tendências de curto prazo que, de fato, se configuram como sequência lógica dos fatos. Nesse sentido, parece-me óbvio que o ingresso do tema Inteligência Artificial em comunicações, e em todas as áreas, é mesmo uma tendência. Da mesma forma, comunicações em frequências muito altas (THz) também o é. E em cima disso, a revisão dos tópicos conhecidos. Há ainda a tal de Quantum Communication. Nem sei direito como funciona, mas, pelo nada que vi, é uma ideia interessante em que tudo é extremamente desafiador.
Eu gostaria de dizer que, durante toda a minha carreira, seja fora ou dentro da Academia, eu tenho tido o privilégio de trabalhar com pessoas extremamente capazes. Destaco aqui os colegas do CPqD, onde passei vário anos, e de todas as empresas com as quais colaborei seja na forma de projetos de pesquisa quanto de consultoria. Que admiração eu tenho por esses profissionais! Como são capazes e quanto tenho aprendido com eles. A eles, a minha eterna gratidão. Gostaria de mencionar os professores de todas as instituições com quem tenho interagido e, particularmente, os colegas da FEEC. Que ambiente rico em conhecimento e em desinteressada colaboração! Muito obrigado, colegas! O que dizer, então, dos orientandos de Trabalho de Final de Curso, de Iniciação Científica, de Mestrado, de Doutorado, e de Pós-Doutorado? Somados, são mais de 100. Por um período eu os ensinava, mas pela maior parte do tempo, aprendo com eles. São incrivelmente capazes! A vocês, meus queridos, devo minha carreira! Meu muito obrigado!
Os meus agradecimentos sinceros à SBrT e seus representantes.
Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Rua Marquês de São Vicente, 225 — Rio de Janeiro, RJ.