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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. Paulo Sergio Ramires Diniz

Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1981) e doutorado em Engenharia Elétrica - Concordia University (1984). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em telecomunicações e algoritmos inteligentes, atuando principalmente nos seguintes temas: processamento de sinais, sistemas adaptativos, filtros digitais, telecomunicações, algoritmos de aprendizado, e bancos de filtros. RID: https://publons.com/researcher/N-2694-2018/ . Google Citations: https://scholar.google.com/citations?user=bfJ9_t4AAAAJ&hl=pt-BR&oi=sra . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1272-7368

INSTITUIÇÃO / CARGO
Prof. UFRJ
PUBLICADA
01 JUN 2021

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Meu pai era técnico de eletrônica tipo faz-tudo, tendo trabalhado em muitas emissoras de rádio e televisão, além de consertar rádios, televisores, transmissores etc. Infelizmente, perdi meu pai durante o ano do pré-vestibular e, na ocasião, eu fazia parte de uma turma IME/ITA em um cursinho perto de casa, que me ofereceu uma bolsa que dava para meus pais pagarem. Naquele momento, eu tinha duas certezas: eu não queria estudar em escola militar por várias razões, mas a principal delas era que meu pai dizia que eu viveria preso por questionar a hierarquia. A outra é que não faria engenharia eletrônica, mas o destino me pregou uma peça. Escolhi a UFRJ por achar que o curso e os alunos de lá me ajudariam a me livrar do provincianismo de Niterói, além de ser pública, pois não poderia pagar uma faculdade. O curso tinha alguns bons professores e, passando pelo ciclo básico, estudei o que cada engenharia fazia naquela época. Um dia cheguei em casa e disse para a minha mãe que tinha decidido fazer engenharia eletrônica. Ela não entendeu, mas me mandou consertar o ferro de passar dela, que, após minha intervenção, explodiu com um curto. Ela perguntou se eu tinha certeza da escolha. Eu pensei então no meu tio, irmão do meu pai, que dizia: “se você não fosse bom com a matemática, não serviria para mais nada”. Como eletrônica tinha muita conta, eu não desisti e acho que pelo menos eu gosto do que faço. Meu irmão e meus familiares provavelmente me comparavam com eles e com o meu pai, muitos deles habilidosos manualmente. No fundo, eu não me via fazendo o que eles faziam com maestria. Na UFRJ, eu estudei em uma turma no básico e em outra no profissional, ambas repletas de pessoas brilhantes que me serviam de estímulo. Foi no terceiro ano que comecei a ter aulas com o Professor Luiz Pereira Calôba e ali começou uma mudança radical na minha cabeça. Eu via nele um profissional supercompetente, que gostava do que fazia, dava aulas com amor, e tinha uma didática nata. Eu me ofereci então para fazer iniciação científica com ele, para depois descobrir que aquele Professor que sabia muita teoria era também um monstro na bancada. Com ele tomei gosto pela pesquisa, pelo ensino e, principalmente, tentei aprender como se orientam os jovens. No final do curso de Engenharia Eletrônica, o Professor Calôba me convidou para fazer o mestrado, e durante o mestrado, ele me disse que achava que eu tinha qualidades para me tornar um pesquisador. Pensei novamente no meu tio brincalhão e decidi que esse era o caminho. Mas, sendo honesto, eu tinha receio de decepcionar o Calôba, pois jamais atingiria seu padrão.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

Durante o mestrado, ingressei na UFRJ como professor, e o Calôba me disse que poderia terminar o doutorado muito rapidamente, mas que me aconselhava a ir para o exterior. Escolhi junto com meus amigos José C. M. Bermudez e Paulo B. Lopes a fazer o doutorado no Canadá, onde já se encontrava um ex-professor nosso, Gelson V. Mendonça. No Canadá, fui premiado com a orientação do Professor Andreas Antoniou, uma das pessoas mais inteligentes e talentosas com quem já convivi. Ele e o Calôba me ajudaram muito ao mesmo tempo em que, sem quererem, me deixavam com medo de decepcioná-los.

3. Quais suas referências profissionais?

Eu tenho muitas, ficaria horas escrevendo sobre isso. Mas o Professor Calôba é certamente uma matriz genética técnica das maiores do Brasil. Em uma estimativa que fiz uma vez, o número chega a muitas centenas. Vou citar alguns poucos, mais velhos, do exterior, e que conheci pessoalmente: A. Antoniou, A. Sedra, S. Haykin, P. Vaidyanathan, Y. C. Lim, T. Saramäki e outros. No Brasil são muitos, mas destacaria a geração anterior à minha que abriu o caminho com pessoas como L. Q. Orsini, A. Giarola, A. Monticelli, E. Watanabe etc. Eu estudei com pesquisadores hoje renomados como H. S. Malvar, J. C. M. Bermudez e trabalho em um laboratório com pessoas que admiro e nas quais me espelho, por isso referências não faltaram.

4. O senhor tem experimentado cooperações internacionais há bastante tempo,

                  pode nos falar sobre elas e qual a importância nos seus trabalhos e
                  pesquisas dessas cooperações?

As cooperações ocorrem naturalmente como resultado de encontros em eventos e reuniões e quando existe empatia entre os participantes. Eu procuro não incentivar colaborações do tipo colonizador/colonizado. As colaborações internacionais em que já participei têm sempre como pano de fundo a ajuda mútua nos dois sentidos e com amizade entre os grupos.

5. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial

                  da SBrT?

O SBrT me oxigena bastante, embora muitas vezes não pudesse comparecer por conta de compromissos paralelos. No SBrT, o que mais gosto de fazer é entrar nas seções e ver nossos jovens fazendo apresentações fantásticas para a idade deles. Salta-me aos olhos também a qualidade das orientações que recebem. Outra coisa que adoro é encontrar os amigos da sociedade, e que são muitos. O que me deixa triste é saber que aproveitamos mal e exportamos muitos desses talentos. Poderíamos ter aqui grandes empresas criadoras de tecnologia em telecomunicações, mas o lucro fácil parece ser mais atrativo para quem tem o que investir.

6. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de

                  Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria
                  de nos contar?

Eu não fui a muitos porque tinha colaborações na Europa que sempre coincidiam com o SBrT. Mas me recordo bem do realizado em Fortaleza, onde, como sempre, fui muito bem tratado pelos meus amigos da UFC, que, por sinal, são muito ativos na Sociedade. O de Curitiba me marcou porque me pediram para fazer uma palestra e tive a impressão de que ajudei um pouco. O de Petrópolis foi muito bom porque pude ver o trabalho voluntário aproximando os alunos de várias instituições. O de Juiz de Fora foi bem família e com boas demonstrações.

7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período

                  de distanciamento social?

Eu tenho ficado em casa e confiando na ciência. Sinto muita falta dos meus companheiros de laboratório e dos alunos. Mas fico perto na minha família.

8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de

                  informação (livro, revista, site etc.)?

Eu gosto de ler e no momento tenho lido livros de história que tentam explicar o que aconteceu em momentos difíceis da sociedade moderna e biografias de pessoas que admiro. Dois deles são The Looming Tower , sobre 9/11, e A Mind at Play , sobre o nosso Einstein: Shannon. Gosto de futebol e do Flamengo. Sobretudo tento entender a gratificação que isso traz a quem não tem nada, como muitos no nosso país.

9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida

                  profissional em engenharia?

Seja ético, colaborativo, dócil, e não acredite na ideia de que, para ter sucesso, outra pessoa deve fracassar. Acredite em si, estude muito, prepare-se e sinta-se capaz de ser um bom profissional em qualquer lugar do mundo. Só depende de você!

10. Na sua carreira, o senhor tem convivido com várias gerações de alunos e

                  pesquisadores, que diferenças, similaridades, avanços ou regressos pode
                  destacar?

Eu não tive muito incentivo para escrever livros, mas gostei de ler muitos livros técnicos. A minha motivação sempre foi organizar melhor as minhas ideias para passar para os alunos. O que percebi é que muitas vezes os alunos que têm acesso direto não dão tanto valor a isso, mas em locais remotos e que nunca pensei em chegar alguém usufruiu do esforço. Escrever um livro é um grande esforço e toma tempo de outras atividades, mas pode valer a pena se você escreve para ajudar alguém. Eu vejo que cada um de nós é uma nano partícula de um universo quase infinito, mas se cada um ajudar com qualquer contribuição, a sociedade fica melhor. Se alguém aprender algo com os livros, o esforço já valeu. A maior motivação para tudo que faço é estar preparado para orientar e ensinar aos alunos. Os que foram meus orientandos representam a maior recompensa que a carreira me proporcionou.

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