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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. Raimundo Sampaio Neto

Recebeu o diploma e o título de Mestre, ambos em Engenharia Elétrica, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1975 e1978, respectivamente, e o grau de Ph.D pela University of Southern California (USC) em 1983. Foi Professor Assistente na PUC-Rio de 1978 a 1979 e bolsista de Doutorado na USC de 1979 a 1983. De novembro de 1983 a junho de 1984 esteve como Post-Doctoral fellow no Communication Sciences Institute of the Department of Electrical Engineering na USC e foi membro do corpo técnico da Axiomatic Corporation, Los Angeles. Está na PUC-Rio desde julho de 1984 onde é atualmente Pesquisador do CETUC e Professor Associado do Departamento de Engenharia Elétrica. Durante o ano de 1991 foi Professor Visitante no Department of Electrical Engineering na USC. Prof. Sampaio tem participado em uma série de projetos e consultorias envolvendo empresas privadas e agências governamentais. Foi co-organizador da Sessão em Resultados Recentes do Workshop de Teoria da Informação do IEEE, 1992, Salvador, serviu também como Technical Program co-Chairman da IEEE Global Telecommunications Conference, Globecom’99, realizada no Rio de Janeiro em dezembro de 1999 e como membro da comissão técnica de vários SBT e ITS. Participou, por três mandatos, da diretoria da Sociedade Brasileira de Telecomunicações, como Primeiro Secretário (2000-01) e Vice-Presidente de Desenvolvimento e Difusão (2002-03 e 2010-11), tendo sido membro de seu Conselho Consultivo no período de 2004 a 2009. Foi Editor de Área, Transmission Systems, da Revista da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (atual Journal of Communication and Information Systems - JCIS). No período de novembro 2015 a junho 2018 atuou como Membro Titular do Comitê de Assessoramento de Engenharia Elétrica e Biomédica (CA-EE) do CNPq. É consultor da CAPES e CNPq. Suas áreas de interesse incluem teoria de comunicações, transmissão digital e processamento de sinais para comunicações. Áreas nas quais publicou mais de 200 artigos em periódicos e conferências com revisores.

INSTITUIÇÃO / CARGO
PUBLICADA
01 JUN 2020

1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

Sendo filho de militar, mudei de cidades várias vezes nos meus primeiros anos de vida. No meu curso primário estudei os dois primeiros anos em Campo Grande, MT, e os dois últimos em escola pública no Rio de Janeiro. Do primeiro ano do curso ginasial ao segundo ano do nível secundário, que por minha escolha foi feito na opção Científico, frequentei o Colégio de Aplicação da antiga UEG (Universidade do Estado da Guanabara) atual UERJ. Foi no período de final de Ginásio e curso Científico que descobri minha atração pela matemática e pendor pela Engenharia. Meu terceiro ano de Científico foi feito no Curso Bahiense, um curso preparatório para vestibular, bastante prestigiado à época. O Curso Bahiense, recrutava alunos nos bons colégios para formar turmas especiais, sem pagamento de anuidades, e alcançar os primeiros lugares nos vestibulares de instituições de ensino de prestígio. Fui recrutado para a chamada turma IME 1, considerada a mais difícil. A formação que recebi ao longo do ano de 1970 foi excelente nas diversas áreas da matemática, Cálculo, Álgebra, Trigonometria, Geometria, e que incluíam desenho Geométrico, Geometria Analítica e até Perspectiva, além de Física, Química e ..,,ufa!. O ensino era excelente, mas a rotina de ensino era dura, bem dura: aulas de 7:00 às 18:00 hs de segunda a sábado e provas aos domingos de 7:00 às 11:00 hs. Um pequeno grupo de alunos, dentre os quais eu me incluía, costumava nas noites de sábado desanuviar em noitadas na interessante vida noturna do Rio de Janeiro. Por vezes íamos quase que diretamente destas noitadas para a nossa prova dominical. Ao final do ano, finda a bateria de provas vestibulares que nos obrigamos a fazer, exaustos mas felizes, o Professor Norbertino Bahiense , dono do Curso, convidou um grupo de alunos (os mais chegados, de acordo com ele) para uma comemoração na sua casa no Leblon “Já avisei a Patroa e está tudo certo”, e lá fomos nós. O encontro estava ótimo e o Prof. Bahiense decidiu abrir a adega e liberar geral (éramos todos maiores de idade). Foi um desatino. Aquele grupo de alunos, sob euforia e alívio com o término de um ano bastante estressante, “encheu a cara” e desabou. Fui acordado horas depois por um sorridente Bahiense. Estava debaixo da mesa da sala de jantar... Sobrevivemos.

Dentre as instituições de ensino superior para as quais prestei exame vestibular e após recomendações de vários ex-alunos escolhi a engenharia da PUC-Rio. Após o ciclo básico nos dois primeiros anos, decidi pela especialização em Engenharia Elétrica. Nesta fase, lembro com clareza de dois dos cursos lecionados por professores atuantes no CETUC (Centro de Estudos em Telecomunicações da Universidade Católica): Modelos Probabilísticos em Engenharia Elétrica, ministrado pelo Professor José Paulo (José Paulo de Almeida e Albuquerque) e Princípios de Comunicações, ministrado com elegância e simplicidade pelo Professor Leite (José Leite Pereira Filho) com base no livro clássico do Lathi. A beleza da matemática e análises envolvidas nestes dois cursos foram em grande parte responsáveis pela minha guinada na direção da área de concentração em Telecomunicações dentro da Engenharia Elétrica da PUC.

Ao chegar aos últimos períodos do curso de graduação eu já havia estagiado na antiga CETEL, depois extinta TELERJ, e estava estagiando na Embratel, já me vendo como engenheiro desta empresa, quando recebi do Prof. José Paulo uma oferta de bolsa para o curso de mestrado oferecido pelo CETUC. Aceitei e considero que aí começou realmente a minha carreira de pesquisador. Após o término do mestrado e um ano como Professor Assistente, apliquei e fui aceito para um programa de doutorado na University of Southern California (USC), altamente recomendada pelo seu ex-aluno Professor José Roberto Boisson de Marca, devido ao seu grupo de professores atuantes na área de telecomunicações, conhecido internacionalmente por sua excelência. Iniciei o curso em setembro de 1979 e defendi minha tese no mesmo mês em 1983, sob a orientação do Prof, Robert Scholtz. Após a defesa permaneci na California por mais 10 meses como Post-Doctoral Fellow na USC e Staff Engineer em uma empresa que prestava consultoria para a Marinha, para a NASA e outras agências americanas. Foi um período muito interessante e rico em aprendizado. Retornei para a PUC em julho de 1984 com uma boa bagagem e conhecimento na minha área de atuação. Em 1991 aceitei convite para passar um ano de licença sabática da PUC como professor visitante na USC onde tive a satisfação de novamente trabalhar com o Prof. Scholtz e auxiliá-lo na orientação de alunos de doutorado.

2. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

Antes de responder, peço antecipadamente desculpas pela possível imprecisão de datas. Minha memória não é muito boa para datas e nomes.

Eu sou do tempo onde um telefone fixo era considerado um bem tão valioso que tinha que ser declarado no imposto de renda. Conseguir uma linha em um tempo menor que um ano demandava “pistolão”. Em 1984, ainda morando nos Estados Unidos um professor grego meu amigo afirmou que em futuro não muito distante nós teríamos telefones pessoais que poderíamos levar no bolso da camisa. Me soou como ficção científica. Na década de 90 no Brasil surgiram os primeiros aparelhos de telefonia móvel. Eram analógicos e instalados em veículos. Por volta de 1994 surgiram os celulares portáteis, ainda analógicos e ainda longe de poderem ser levados no bolso da camisa. Eram grandes e pesados. A privatização em 1998 resultou em grande avanço e modernização das telecomunicações com a digitalização das comunicações telefônicas e posteriormente com a introdução de telefones celulares digitais com dimensões reduzidas. A crescente popularização destes últimos criou a necessidade também crescente de aumento da capacidade e eficiência dos sistemas de telefonia celular, com o consequente surgimento de diferentes e cada vez mais sofisticados métodos de acesso às redes de comunicações e tecnologias de transmissão digital, padronizadas nas chamadas gerações de telefonia celular. Na verdade, a área de telecomunicações que já englobava teorias calcadas basicamente em matemática como códigos corretores de erro e a Teoria da Informação, tem hoje forte presença do processamento digital de sinais e até das camadas superiores à camada física na classificação MAC. A área tornou-se tão vasta que a pesquisa a ela relacionada está forçosamente segmentada. Por outro lado, esta segmentação abre espaço e oportunidade para a absorção de pesquisadores com diferentes formações e pendores.

3. O que lhe motiva a participar de sociedade científicas, e em especial da SBrT?

Quando retornei dos Estados Unidos em julho de 1984, cheguei ao Brasil ansioso para conhecer e me inserir na comunidade acadêmica atuante em telecomunicações. Felizmente no ano anterior, em setembro de 1983, um grupo de professores e pesquisadores visionários havia fundado a Sociedade Brasileira de Comunicações. Sociedade esta que ajudou a mim e a grande parte dos pesquisadores e jovens alunos da área a tomar conhecimento, e possivelmente interagir e colaborar com as pesquisas em andamento nas diversas instituições de ensino e pesquisa. Ademais, a SBrT, através de seus simpósios anuais veio a se tornar um fórum importantíssimo para a propagação das pesquisas sendo realizadas nas nossas instituições na área de telecomunicações e em meio fundamental para que a nossa comunidade tenha presença e voz junto à comunidade científica brasileira. Reconhecendo, pelas razões citadas, a grande importância de uma sociedade científica como a SBrT, sinto-me honrado por ter sido escolhido para fazer parte de sua diretoria por três mandatos (2000-2001, 2002-2003 e 2010-20011) e ter sido eleito para seu Conselho Deliberativo por 3 mandatos, totalizando um período de 6 anos de atuação.

4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

O primeiro dos simpósios que participei, imediatamente após meu retorno dos Estados Unido, foi o SBT 1984 (só depois tornou-se SBrT), segundo da série, realizado em Campinas. Acredito ter participado de quase todos os outros, ou de sua grande maioria, seja como coautor de artigos com colegas ou alunos, como membro do comitê técnico e/ou presidente de Sessão. Vários simpósios merecem destaque. Vou me deter em alguns. O SBT 1995, realizado em Águas de Lindóia-Campinas, se não me engano foi o primeiro onde a inscrição incluía a hospedagem no hotel sede do simpósio. Me lembro que, além das atividades técnicas do simpósio, tivemos nos agradáveis ambientes do hotel, reuniões e papos divertidos e muita música noite adentro, embalados pelo som dos violões dos professores Marcelo Sampaio e João Célio. O SBT 1996 ocorrido no mês de julho em Curitiba, pois foi, apesar do frio congelante, onde conheci minha futura esposa, ainda aluna de graduação. Naquela ocasião dançamos ao som do animado banquete e posteriormente, iniciamos a nossa relação em1997 durante o seu curso de mestrado no CETUC. Considero importante e destaco a colaboração da SBrT, sob a presidência do Prof. José Mauro Fortes da PUC-Rio, e a participação decisiva de seus sócios na realização com grande sucesso da IEEE Globecom, à época a maior e mais prestigiada conferência internacional na área de telecomunicações, ocorrida no Rio de Janeiro em dezembro de 1999. A Globecom 1999 teve como Presidente o Professor José Roberto Boisson de Marca da PUC-Rio e eu atuei como coordenador técnico, juntamente com o Professor Edmundo de Sousa e Silva da UFRJ. Lembro com prazer os simpósios realizados na região nordeste, que acrescentaram à parte técnica a conhecida hospitalidade do povo nordestino. Menciono também, como satisfação pessoal, o SBrT 2003 no Rio de Janeiro, pela homenagem a mim prestada na comemoração dos 20 anos da SBrT, o ITS 2006, em Fortaleza, e o SBrT 2011, em Curitiba, onde foram anunciadas, respectivamente, as minhas promoções a Sócio Sênior e a Sócio Emérito da Sociedade.

5. Quais suas referências profissionais?

Tenho algumas referências profissionais de pessoas com os quais interagi na minha vida acadêmica. Destaco aqui duas delas. A primeira é o Professor José Paulo de Almeida e Albuquerque, egresso do MIT e meu professor e orientador durante o curso de mestrado no CETUC/PUC-Rio. Seu estilo e maneira de conduzir suas aulas além do trato com os alunos e seu enorme conhecimento técnico me impressionaram sobremaneira e tiveram impacto na forma das minhas aulas e orientação dos meus alunos. Prof. José Paulo foi o criador e incentivador do grupo de sistemas de comunicações do CETUC. Foi também persistente em encorajar os professores deste grupo a fazer curso de doutorado no exterior - o doutorado em engenharia elétrica, telecomunicações, ainda não tinha sido criado na PUC e, se existia, era incipiente em outras instituições. Vários de nós, professores iniciantes do grupo, seguimos este caminho, restando ao Prof. José Paulo a grande carga de ministrar vários cursos e orientar muitos alunos de pós em substituição aos ausentes. Ou seja, “carregou o piano” para que nós pudéssemos perseguir nossas ambições acadêmicas. Minha segunda referência é o Prof. Robert Scholtz meu professor e orientador no programa de doutorado na USC. Interessante e afortunadamente, eu percebi nele muitas das qualidades do Prof. José Paulo, no que tange ao cuidado na preparação e apresentação de suas aulas, no trato com os alunos e no enorme conhecimento técnico. Além disso pude contar em várias ocasiões com o seu apoio em aspectos da minha vida pessoal. Tenho tentado, não sei com que grau de sucesso, seguir estes dois exemplos na minha vida acadêmica.

6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc. ) que considera interessante?

Eu tenho sim um hobby que infelizmente está suspenso. Sou fundador e participante de uma banda mista de percussão e outros instrumentos que sempre tocou em público e que por conta da pandemia não se reúne e nem se apresenta. Uma breve história: ainda adolescente eu passava férias com meus primos e primas de uma família de 10 irmãos que moravam em Diamantina, MG. Na época do carnaval, seja por falta de dinheiro ou por considerar os bailes do tradicional clube local “careta”, começamos uma pequena bateria, basicamente percussão, que tocava e cantava, “no gogó”, nas ruas ou em frente a bares. O interessante é que esse pequeno grupo cresceu a ponto de o clube parar de promover os tradicionais bailes devido à baixa frequência. O povo estava nas ruas. Em 1972 oficializamos o nome da nossa banda: Bartucada, por ser uma batucada que começou em um bar e tinha uma proposta inovadora, tocávamos e cantávamos praticamente todos os ritmos, mas que invariavelmente entravam no acompanhamento de uma bateria de percussão. Fomos, acredito eu, os primeiros a adotar este estilo, que hoje encontra eco em alguns grupos, como por exemplo, o Monobloco do Rio de Janeiro. Ao som da Bartucada tocando em praça pública para multidões o carnaval de rua de Diamantina foi considerado um dos melhores do Brasil. Hoje, quase cinquenta anos depois, estamos ativos, somos um grupo (quase uma confraria) de quase 150 pessoas de várias idades e profissões que se se reúnem e se revezam em apresentações em Minas e outros estados, É um prazeroso hobby para a grande maioria de nós, uma vez que à exceção de cantores e profissionais que atuam na ala dos metais, teclados e cordas nenhum dos demais participantes é remunerado. Todo o dinheiro recebido nos shows é revertido na própria Bartucada, promovendo reuniões musicais de congraçamento, aquisição e manutenção de instrumentos e, recentemente, na adequação, manutenção e aprimoramento do galpão alugado para abrigar nossa sede e quadra de ensaios e eventos em Belo Horizonte.

Este meu hobby dissipa tensões e promove agradáveis reuniões com parentes e amigos (e boas cachaças) das mais diversas tendências. Está fazendo muita falta nesse período de pandemia.

Não me ocorre agora algum livro específico que consideraria interessante como fonte de informação, mas existem alguns que foram leituras prazerosas ao longo da minha vida. Fui um leitor voraz de livros de garoto até minha fase adulta. Enquanto garoto e adolescente devorei as obras de Monteiro Lobato, as histórias de Tarzan de Edgar Rice Burroughs, algumas obras de Menotti Del Pichia, como A filha do Inca, coleções completas, e muitos outros da extensa biblioteca do meu pai. Literalmente, eu não conseguia dormir sem ler. Ainda no ginásio/científico, Machado de Assis, José de Alencar e outros clássicos da literatura brasileira, e pouco mais tarde os deliciosos livros de Jorge Amado, Capitães de Areia, Gabriela Cravo e Canela, Mar Morto, Tenda dos Milagres, além de vários outros autores. Infelizmente, em troca de outras fontes, não tenho mantido o hábito da leitura regular e constante de livros, porém posso citar dois que me marcaram: Grande Sertão-Veredas de Guimarães Rosa, que me fascinou pela narrativa intensa e interessantíssima, que incluía a invenção de palavras e expressões, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que li pela primeira vez há décadas. Leitura absorvente e fascinante, mas um pouco difícil de acompanhar, devido à existência de várias gerações e profusão de personagens. Recentemente, ganhei de um aluno colombiano, meu orientado de doutorado, uma versão em espanhol. Apesar de o aluno fornecer um anexo com as relações entre gerações e árvore genealógica que muito ajuda, a minha dificuldade com o espanhol, apesar do esforço, tem emperrado a leitura. Por vezes eu até achava que meu espanhol era razoável, ao menos era essa a minha sensação quando nos reuníamos em um bar, eu e grupos de mais de doze alunos e alunas hispânicos, para comemorar a defesa de dissertação ou tese de um deles. Mas, claro, eram os enganosos efeitos das várias rodadas e brindes da comemoração.

7. O senhor tem orientado pessoas com formação em outros países, há alguma diferença que possa destacar da formação dessas pessoas com a dos seus orientados brasileiros?

Tenho tido alunos e alunas de várias partes da América Latina, mais de um de cada país, Perú, Colômbia, Equador Honduras e mais recentemente Cuba. Os meus orientados brasileiros foram, e são, em sua maioria oriundos de boas instituições de ensino, muitos da própria PUC-Rio. Em termos de formação posso perceber ocasionalmente algumas diferenças, não somente devidas à formação técnica em si, mas a diferenças de ênfases que foram dadas nas respectivas formações a certas matérias que consideramos primordiais para nossos cursos. Meus alunos hispânicos têm, entretanto, conseguido superar eventuais limitações, São em geral compenetrados, dedicados, ansiosos por aprender e aperfeiçoar sua formação. Além destas características, eles são extremamente respeitosos com os professores, alegres, adoram reuniões e festas (destaque para os cubanos e cubanas) e têm me proporcionado um interessante intercâmbio de culturas. Tem sido um prazer trabalhar com eles, mas também uma fonte extra de preocupação com os prazos para finalização de seus programas e consequente interrupção de suas bolsas de estudo. Manter-se sem elas em um país que não é o seu, longe das famílias e com o alto custo de vida do Rio de Janeiro, em particular os altos custos de moradias no entorno da PUC-Rio, é um grande desafio. Costumo brincar que eu acabo me sentindo um pai (por vezes bastante enérgico) de todos. Com as preocupações decorrentes.

8. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

Certamente é importante procurar trabalhar com um pesquisador experiente em um grupo de pesquisa consolidado em uma instituição de prestígio. No entanto, um outro fator importante, com um peso considerável, tem a ver com o entusiasmo do pesquisador principal, que seja este realmente um líder, e a sinergia desse grupo, mesmo que estejam ainda buscando uma consolidação e maior destaque em suas áreas de pesquisa.

Me permito, entretanto, acrescentar algumas “posições filosóficas” que procurei passar para meus filhos mais velhos e procuro agora passar para minhas duas filhas adolescentes: Invista e dedique-se ao que você escolheu ou que deseja exercer como atividade na sua vida, mas lembre-se que caso frustrado nas suas expectativas, é sempre melhor procurar novos caminhos e funções do que permanecer infeliz com sua escolha. Na sua atividade profissional, respeite aqueles que te cercam e pratique a empatia, principalmente em cargos de chefia e que incluem certamente seus alunos se sua atividade for acadêmica. Seja um profissional responsável naquilo que escolheu ou que esteja exercendo, mas é bom lembrar que uma existência plena não pode prescindir de uma boa dose de humor, divertimento, alegrias recorrentes, papos despretensiosos, um tanto de irreverência e até alguma irresponsabilidade, se inofensiva.

9. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

Lembro que além de constituir-se em um fórum importantíssimo para a propagação das pesquisas sendo realizadas nas nossas instituições nas áreas de telecomunicações e, mais recentemente, de processamento de sinais, a existência da SBrT é fundamental para que a nossa comunidade tenha presença e voz junto à comunidade científica brasileira. Como mensagem, peço então que os leitores contribuam, ou continuem a contribuir, com a Sociedade, incentivando a associação dos jovens alunos, assim como a publicação de artigos nos simpósios e na revista da SBrT.

Ressalto também a ótima iniciativa do Professor Edmar Gurjão de criar esta série de entrevistas envolvendo sócios da SBrT. Sugiro portanto aos leitores que acompanhem esta série, que, como demonstrado pelas duas entrevistas que precederam a esta, dos colegas professores Hélio Waldman e Hélio Magalhães de Oliveira, contém colocações, informações e narrativas muito interessantes e que, tenho a certeza, continuarão com entrevistas futuras de personagens de grande importância e destaque na história de nossa sociedade.

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