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Entrevista · Memória da SBrT

Prof. Ricardo Lopes de Queiroz

Ricardo Lopes de Queiroz é Professor Titular do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília, é um Fellow do Institute for Electrical and Electronic Engineers e é um Pesquisador 1A do CNPq. Possui mais de 30 anos de experiência em pesquisa científica na área de imagens e vídeo, para a qual suas contribuições abrangeram centenas de artigos científicos e dezenas de patentes, as quais foram objeto de mais de 8500 citações. Prof. Ricardo de Queiroz já organizou um SBrT em Brasília em 2012 além de outras conferências internacionais como ISCAS, MMSP e ICIP. Ele participa dos simpósios da sociedade há 36 anos. Ele participa ativamente de comitês internacionais de padronização de compressão de vídeo e imagens (como MPEG e JPEG) e foi do grupo de estudos para implementação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital. Ele é reconhecido internacionalmente na área de compressão e transmissão de imagens e vídeo.

INSTITUIÇÃO / CARGO
Prof. da UnB
PUBLICADA
01 MAR 2026

1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Eu sou Eng. Eletricista pela UnB, Mestre em Engenharia Elétrica pela UNICAMP e Doctor of Philosophy pela University of Texas at Arlington. Sempre fui muito atraído por equipamentos de áudio, tendo enveredado pela música desde adolescente. Eu queria fazer produtos de áudio, mas a vida acadêmica é dura e vai te levando. Descobri que não era muito bom em eletrônica e acabei me aprofundando na área de telecomunicações. Meu projeto final foi em projeto de filtros digitais, sob a orientaçao do Prof. Humberto Abdallah Jr. Isso foi nos anos 80, nada era fácil ou acessível em processamento de sinais. Nessa época, quando estava me formando, o Prof. Henrique Malvar havia acabado de voltar dos EUA e deu uma palestra sobre codificadores de vídeo para videofones, que é o que ele trabalhava na PicTel. (Ele depois voltou aos EUA e se tornou VP da PicTel, antes de mudar para a Microsoft Research). Os videofones, ou os video codecs px64, da época para mim eram o futuro. O assunto me interessou muito. Eu logo depois fui para Campinas (FEE/UNICAMP) para o mestrado. Comecei no Departamento de Telemática, mas ao contar sobre meu interesse nos codecs de vídeo, me sugeriram mudar para o Departamento de Comunicações (DECOM) onde havia um grupo trabalhando com digitalização e compressão de sinais de TV para o CPqD da Telebrás. Então fiz meu mestrado sob a supervisão do Prof. João Batista Tadanobu Yabu-uti, mais ou menos na área de codificação DPCM de sinais de vídeo. Após o mestrado, voltei para Brasília trabalhando com o Prof. Malvar como Pesquisador Associado em um projeto sobre transformadas sobrepostas e codificação de imagem. Eu estava para ir para o Doutorado no Canadá quando o Prof. K. R. Rao (co-inventor da DCT) fez uma visita ao Malvar e, em um almoço aqui em Brasília, ele perguntou o que eu ia fazer. Eu disse que estava por ir para o doutorado em Ottawa. Ele então disse que o Canadá era muito frio e que era para eu ir fazer Doutorado com ele no Texas. E eu fui para lá para o Texas fazer o meu doutorado. Eu o completei em uns dois anos e meio. A minha tese é intitulada "On Lapped Transforms" e aplicava as tais transformadas na codificação de imagens.

Ou seja, posso dizer que, desde meus últimos anos da graduação, me interessei e trabalhei com processamento de sinais e com compressão de imagens e vídeo. Isto tudo apesar que, lá no começo, meu interesse era em equipamentos de áudio.

Um ponto para levar desta história é que você começa sua vida acadêmica com uma ideia, mas provavelmente vai terminar em algo diferente. Oportunidades vão aparecendo, facilidades para lidar com diferentes assuntos vão surgindo, afinidades e interesses por outras áreas vão se desenvolvendo.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

Eu me formei em 1987 como Engenheiro Eletricista na Universidade de Brasília. Meu projeto final foi em projeto de filtros digitais IIR, orientado pelo Prof. Humberto Abdallah. Fui em seguida cursar meu Mestrado, também em Engenharia Elétrica, na UNICAMP, sob orientação do Prof. João Batista T. Yabu-uti. A minha tese foi sobre codificação de imagens. Voltei para Brasília em seguida para trabalhar como Pesquisador Associado em um projeto do Prof. Henrique Malvar sobre "lapped transforms" e compressão de imagens. Fiquei na UnB uns 15 meses, antes de embarcar para o Texas, nos EUA, em Janeiro de 1992, para realizar meu Doutorado na University of Texas at Arlington. Minha tese de doutorado foi focada no projeto de "lapped transforms" e bancos de filtros, com foco de aplicação em compressão de imagens. Terminei meu doutorado em Agosto de 1994 e já fui contratado para um centro pesquisa da Xerox em Rochester, no estado de Nova Iorque, também nos EUA. Eu era o "especialista" em compressão de imagens para as atividades do Webster Research Center. A Xerox estava completando a transição para processamento digital e a empresa precisava lidar melhor com as quantidades massivas de dados produzidos e processados. Eu fiquei na Xerox por 9 anos. Aprendi muito, trabalhei com gente na vanguarda de algumas áreas, participei de comitês e fui bastante produtivo, cientificamente. Meu foco era em compressão de imagens mas também em imageamento digital e em cores. No ano de 2002, mudamos de volta para Brasília. Passei alguns anos explorando possibilidades, mas também como Pesquisador Associado (de novo) na UnB. Prestei concurso em 2006 para professor adjunto no Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Brasília e novo concurso para Professor Titular, em 2009, desta vez no Departamento de Ciência da Computação, na mesma universidade. Deste então estou na UnB, com a ressalva que em 2015 fiquei um ano em Seattle com a Universidade de Washington e colaborando com a Microsoft Research. Fica claro que a UnB sempre foi recorrente na minha vida profissional.

A minha volta ao Brasil foi uma decisão às escuras. Decidimos voltar e pronto, voltamos. Passei alguns anos para encontrar algum foco aqui no Brasil e em 2005 estava pronto para desistir e retornar, já com emprego na University of Texas em Austin. Foi quando recebi um telefonema de um Diretor da HP em Porto Alegre que me chamou para uma conversa lá em POA. Fui e participei de uma videoconferência com alguns amigos meus da HP Labs (de Palo Alto, na California). Ocorre que nossos grupos (da HP e da Xerox) eram muito parecidos e nós éramos amigos. A conversa foi muito boa e impressionou muito o pessoal de Porto Alegre. Com isso consegui um projeto grande trabalhando com o pessoal do HP Labs, com muito recurso. Esse projeto me permitiu sustentar um grupo de pesquisa praticamente como se eu estivesse nos EUA. O Projeto UnB HP durou uns 5 ou 6 anos e formamos doutores e mestres, entre eles os Professores Eduardo Peixoto, Edson Mintsu, Tiago Fonseca, Renan Utida, Diogo Garcia, Camilo Dorea, Alexandre Zaghetto e Bruno Macchiavello. Basicamente, sem esta coincidência, eu provavelmente não estaria no Brasil hoje.

Um ponto sobre a minha vida profissional é que foi praticamente toda voltada para a área visual: imagens, vídeo etc. Um outro ponto importante é a experiência tanto na indústria quanto na academia, o que me traz uma visão mais objetiva sobre pesquisa científica e seu lugar na sociedade.

3. Quais suas referências profissionais?

Eu gostaria primeiramente de me referir aos professores os quais sempre usei como referências. Professores Humberto Abdallah, Henrique Malvar, Paulo Roberto Nunes, João Romano, João Yabu-Uti, Reginaldo Palazzo, além do meu saudoso orientador, Prof. K. R. Rao. Outros com quem não tive aula, nem me orientaram, como os Professores Paulo Diniz, Weiler Finamore e o saudoso Abraham Alcaim, foram muito importantes para a minha formação. Chefes, onde trabalhei, que ajudaram a me moldar, como Reiner Eschbach, Paul Roetling, Rob Buckley e Phil Chou. Eu sempre tento me espelhar em vários colegas, de empresas e universidades nas quais trabalhei, mas são muitos e sempre há um risco de deixar muita gente de fora. Mesmo hoje, admiro vários colegas e acredito que eles me impactarão no futuro.

4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

Eu sou membro do IEEE há mais de 30 anos. A longevidade de minha membresia da Sociedade Brasileira de Telecomunicações eu não sei direito, mas o Simpósio foi a minha primeira conferência, em 1990, há 36 anos. A SBrT é a minha sociedade. Acho fundamental usar a SBrT para divulgar conhecimento e estimular jovens a seguir nas carreiras acadêmicas e científicas.

5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

Minhas primeiras participações no SBrT foram no ITS de 1990 no Rio e no SBT de 1991 na USP. Naquela época, a sigla da sociedade e do simpósio era SBT e o nome do simpósio era Simpósio Brasileiro de Telecomunicações. Tinha-se a ideia de a cada 4 anos fazer o simpósio ser internacional, e recebia o nome de International Telecommunications Symposium. O ITS no Rio foi no Rio Palace Hotel (no posto 6, local do antigo Cassino de Copacabana). Eu estava terminando meu Mestrado na Unicamp e fretamos um ou dois ônibus para levar todo mundo para o Rio. O 9o SBT foi em São Paulo, na Poli da USP,e eu já estava de volta à UnB, trabalhando com o Prof. Malvar. Tenho aqui os anais dos dois congressos e vou compartilhar uma foto da capa de cada um.

Depois disso, saí do país e só voltei a participar de outro evento da nossa Sociedade no ITS de 2006 em Fortaleza. De lá pra cá, participei da maioria, sempre que podia. Todos os eventos são memoráveis, cada um a seu jeito e guardo boas lembranças de todos em que participei. Eu organizei, junto com o André Noll e uma equipe fantástica, o 30o SBrT em Brasília. Quem sabe organizamos um outro aqui em Brasília em um futuro próximo.

6. Como o senhor enxerga a formação atual e há algo que precisamos (ou devemos) mudar?

Difícil dizer com a instabilidade na nossa área causada por LLMs. Há cinco anos eu responderia esta pergunta com muito mais facilidade. Estamos em transição e temos que ver como vai ser o próximo ponto de estabilidade, onde alcancemos um estado estacionário que permita predições confiáveis para um futuro próximo.

Dito isso, a sugestão mais fácil seria manter a direção, continuar os estudos correntes em telecomunicações, mas crescentar IA quando necessário para resolver problemas.

Um exemplo na minha área de maior proximidade: compressão de vídeo. Codificadores neurais de vídeo competitivos com o padrão tem complexidade de decodificação (multiplicação e acúmulo por pixel) da ordem de 1000x maior que o padrão mais complexo (VVC). Autoencoders de vídeo são o que se estuda hoje em dia, e até o MPEG mantém um grupo de trabalho, mas os novos codificadores ainda vão ser tradicionais por muito tempo. Compressão é algo que não se faz só na nuvem, alguma compressão tem que ser feita na captura e alguma descompressão tem que ser feita na visualização. Agora ao ponto, apesar de autoencoders não irem adiante, tem muito espaço para pequenas redes neurais para resolver problemas localizados, como análise de contexto ou de movimento.

Outro exemplo é o modelo chinês de aplicar IA na indústria e serviços, ao invés de apenas buscar LLMs cada vez maiores, onde o custo-benefício já está assintotando. Modelos de linguagem serão baratos e confiáveis o suficiente para utilização independente nas pontas das aplicações. Ou seja, devemos integrar IA em soluções para resolver problemas pontuais existentes.

Resumindo, sobre a formação, tem que ser mais ligada à IA do que era no passado, mas sem perder a formação que temos proporcionado.

7. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

Sempre fui ligado à música, desde pequeno. Aos 13 anos eu tinha uma "equipe de som", ou seja colocávamos sons e luzes nas festinhas em casa, que eram muito comuns naquela época. Na época, a gente "botava o som", o que hoje foi promovido a ser DJ. Sempre fui DJ, ou discotecário, ou sonoplasta. Aos 16 eu já era o DJ residente do Roller Center de Brasília e tocava de vez em quando em casa noturnas (boites), mesmo escondido, por causa da idade. Depois toquei em quase todas casa noturnas e tive alguns programas de rádio. Durante a graduação eu era muito ativo, tocava em shows e grandes festas, mas tudo meio que diminuiu quando saí para o meu Mestrado na Unicamp. Quando voltei à Brasília em 1990-1991 voltei a ser mais ativo como DJ, mas saindo para o Doutorado, tudo ficou meio para trás. Até hoje, muitos dos meus amigos são ligados à música e nossas conversas continuam orbitando em volta do tema.

8. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

Para ter calma, ter paciência e perseverança. Como todo jovem, queria resolver logo tudo rapidamente. Eu escrevi vários artigos que poderiam ser melhor maturados. Os artigos ficavaam rasos, mas eram publicados e eu passava para outro. Hoje vejo que poderia ter muito maior impacto, até em termos de citações, se tivesse gasto mais tempo e tido mais paciência e perseverança em certos assuntos. Mas na hora é difícil dizer qual é o melhor caminho.

Outra ponto é que você vai chegar lá, e não precisa ser o melhor de todos. Está tudo bem se tem colegas melhores que você em um assunto. Só tem que prosseguir e ser diligente.

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