Graduei-me em Engenharia Elétrica (Telecomunicações) pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) em 1969. Em 1972 ingressei na UW-Madison (University of Wisconsin - Madison, USA) onde obtive os graus de MSc (1974) e PhD (1978). “Como foi essa escolha?” é uma pergunta muito reflexiva. Me faz voltar no tempo e lembrar que, quando eu cursava o ginasial (e acredito que ainda hoje), era ideia corrente que engenharia era a profissão para quem gostava de matemática.
E me faz lembrar que foi neste tempo passado, em que “descobri” a matemática, que a inclinação pela engenharia surgiu. Antes disto, ainda que não soubesse o que era matemática, a matemática me intrigava. Duas noções matemáticas intrigantes eram a noção de que os números não tinham fim --- noção de infinito --- e de que desenhos aninhados também não tinham fim (havia um produto enlatado que tinha no rótulo o desenho de uma lata e nesta lata, sem fim, o desenho da mesma lata --- a noção de infinitésimo). Isto me intrigava. Assim como português, história e geografia eram apenas nomes de disciplinas também matemática era apenas o nome da disciplina.
Entendo que isto se dava porque apenas o “como” (como somar, como multiplicar) era ensinado e não o “porque” (o que é soma, o que é multiplicação). Quando aprendi o Teorema de Tales (usado para entender as relações em um triângulo), a Fórmula de Bhaskara (envolvendo o conceito de raiz de uma equação), as portas para a percepção de que existe o “why” e não apenas o “how” se abriram. Esta é história contada a-posteriori.
O que me moveu exatamente a escolher engenharia podem ter sido outros fatores. A escolha da ênfase Telecomunicações foi fortemente influenciada pela abertura desta ênfase no curso de Engenharia Elétrica da PUC-Rio. Após a graduação ingressei no curso de mestrado da PUC-Rio (que foi criado juntamente com o CETUC, Centro de Estudos em Telecomunicações da Universidade Católica) e iniciei estudos na área de “Propagação de Ondas Eletromagnéticas” (por influência do colega --- naquela época meu professor Mauro Soares de Assis).
A escolha de Teoria da Informação como minha área de pesquisa aconteceu em 1971. Devido, inicialmente, à influência do colega --- também meu professor --- José Paulo de Almeida e Albuquerque (Talvez ele mesmo, José Paulo, não se lembre que me enviou suas notas em “Rate-Distortion Theory” em que fez um estudo sobre compressão de sinais de sonar). Em 1971 associei-me ao IEEE Information Theory Group (hoje Information Theory Society). Posteriormente, na UW-Madison, minha escolha foi consolidada, sob a tutela do meu orientador de doutorado William A. Pearlman (que, posteriormente, transferiu-se para o Rensselaer Polytechnic Institute).
Ao concluir as disciplinas do curso de mestrado iniciado na PUC-Rio (sem completar os requisitos para ter o grau de “Mestre em Ciências”) fui contratado como professor pela UFPA (Universidade Federal do Pará) e, em 1971, iniciei a minha carreira acadêmica. Em 1973 ingressei como doutorando na UW-Madison onde fiquei até 1978. Após completar os estudos para o doutoramento retornei à UFPA para em seguida me desligar. Em 1979 fui contratado pela PUC-Rio, que considero minha alma-mater. Na PUC-Rio trabalhei (no CETUC) até me aposentar em 2012. Enquanto na PUC-Rio licenciei-me, por cerca de 2 anos, para trabalhar no “Centro Científico Rio” da IBM. Trabalhei também, por 2 semestres, como professor horista, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Continuo trabalhando ativamente mesmo após aposentar-me. No período 2020-2021 trabalhei como Professor Visitante no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA. Em S. J. dos Campos, SP.). Intermitentemente, ora como voluntário, ora com o apoio de agências de fomento (FAPEMIG, CNPq), tenho trabalhado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Presentemente estou na UFJF trabalhando em projeto coordenado pelo colega e parceiro de pesquisa, Moisés Vidal Ribeiro.
Também intermitentemente trabalhei na Macedônia (em Ohrid, na University for Information Sciences and Technology). Trabalhei, no ano de 2019, em parceria com o colega Jaime Portugheis, na UNICAMP-Limeira.
Muitas são as pessoas que eu gostaria de citar. Principalmente muitos colegas, professores e outras pessoas cujas trajetórias e a minha se cruzaram. Orgulho-me muito do meu “networking” mas não cabe citar todos.
Começaria por citar alguns que foram meus professores na PUC-Rio durante a graduação: Nos primórdios, Roberto Peixoto, Hélio Drago Romano e, em seguida, Luiz Carlos Bahiana, Mauro Soares de Assis, José Paulo de Almeida e Albuquerque, Jorge Panazio.
A colaboração e interação com colegas de trabalho, entre eles José Mauro Pedro Fortes, Paulo Roberto Nunes, Raimundo Sampaio Neto foi de extrema importância na minha consolidação como profissional. E da mesma forma os ex-alunos. Mencionaria em especial os hoje colegas Cecílio Pimentel (UFPE), Marcelo da Silva Pinho (ITA), Danilo Silva (UFSC). Meu ex-orientador e amigo William Pearlman. Todos estes tiveram uma influência muito grande na minha trajetória.
A colaboração e interação com muitos colegas e parceiros e principalmente a amizade enriqueceram enormemente a minha trajetória: Reginaldo Palazzo, Valdemar Cardoso da Rocha, Jaime Portugheis, Eduardo Antônio Barros da Silva, Marcos Craizer.
Junto de muitos outros --- que estão na minha lembrança, mas não cabe citar todos --- todos ajudaram a me tornar um cientista (cientista no sentido moderno da palavra, ou seja, um trabalhador da ciência) e professor.
Valorizo muito a participação em sociedades científicas. é fundamental para os que abraçam a carreira acadêmica e científica. Desde o início da vida profissional (1972) sou membro do IEEE Information Theory Society (sendo hoje Life Member). Sou também membro da SBrT desde a sua fundação em 1983 (sociedade em que sou hoje Membro Emérito).
De início a motivação para me associar a uma sociedade cientifica não era muito clara. Os benefícios palpáveis --- receber perioódicos, participar de simpósios etc. --- eram a maior motivação. Em 1977 participei do ISIT (Int'l Simp. on Info. Theory) em Ithaca, USA (realizado pela Cornell University). Lá me encontrei com o colega Fernando Campello (que àquela época fazia doutorando em Cornell e depois ingressou como professor na UFPE). Passaram-se alguns anos para eu perceber com clareza que participar destas sociedades é conectar-se com os pares e suavizar o caminho até a “fronteira do conhecimento”. O sentimento de pertencimento toma tempo para ser adquirido e toma tempo adquirir, até mesmo, a noção de fronteira do conhecimento --- uma vasta fronteira. Diria que adquirir o sentimento de pertencimento, de ser parte de um enorme colegiado (formado por seus pares e você) e de estar circulando em um meio onde os assuntos conversados são fatos relacionados às tecnologias porvir e as questões não respondidas é um processo lento (foi lento para mim). Lento, mas motivador.
de nos contar?
Participei do Primeiro Simpósio Brasileiro de Telecomunicações. Aconteceu em 1982. Foi sediado pela PUC-Rio.
Todos nós (membros da SBrT) temos muitas histórias para contar. Muitas delas frutos de improvisação. Como somos uma sociedade relativamente nova a organização dos simpósios recorre a muita improvisação. E improvisação não foi o que faltou no Simpósio que comemorava o décimo aniversário da SBrT. Neste simpósio, eu que era Secretário da Sociedade Brasileira de Telecomunicações, participei na qualidade de representante do Presidente (Hélio Marcos Machado Graciosa), que não pode comparecer. Preparei-me e cumpri os rituais e compromissos rotineiros (Abertura, Encerramento etc.). Ocorreu que durante uma confraternização (coquetel de abertura se não me falha a memória) estava sentado à uma mesa, me divertindo --- ouvindo uma banda que tocava ao vivo --- fui surpreendido por uma convocação, feita pelo Coordenador do Simpósio, para que o acompanhasse. Acompanhei-o. Enquanto ele se dirigia em direção a um instrumentista com um órgão na mão (um instrumento musical é claro), o líder da banda. Apesar de “teorista da informação” (disciplina que lida com limitantes) não estava consciente que 3 copos de cerveja me colocavam fora do meu limite (acima de 3 copos de cerveja a capacidade dos meus neurônios tende rapidamente para zero bits-por-uso do canal --- passa quase nada). E, por conta disto, enquanto caminhava e questionava se estava sendo convocado para cantar (não me ocorria outra possibilidade) o Coordenador me informa que eu estava ali para “dizer algumas palavras” em comemoração ao décimo aniversário de criação da SBrT. Seguiu-se um silêncio de 10 segundos, que mais pareciam 10 minutos, em que, inexperiente, tentei organizar um improviso: o que saiu foi “O Coordenador me pediu para dizzzer algumasss palavrasss pelosss 10 anosss da sssociedade; vamos todos cantar parabéns para Sociedade”. Um olhar de panorama se instalou no rosto de cada um dos presentes. E neste instante percebi que eu estava ali para de fato cantar: e entoei um “Parabéns para você” que em seguida foi entoado por todos. Saí dali e fui tomar um café. Naqueles 10 segundos de silêncio aprendi: se você for apanhado de improviso improvise. Improviso não se organiza.)
Meu hobby é a leitura. Eclética. Sou assinante do “The New Yorker” --- há mais de 30 anos. Leio mais autores que já morreram, mas gosto muito, claro dos que ainda estão vivos. Na lista dos meus 10 melhores livros eu certamente incluo a peça “Hamlet: the prince of Denmark”, lida e relida (o original) inúmeras vezes, “Tutaméia”/J. Guimarães Rosa e “Sapiens”/Yuval Harari. Os últimos livros lidos foram “The adventures of ENGLISH: the biography of a Language”/Melvyn Bragg e, “No café existencialista”/Sarah Bakewell. “How democracies die”/Steven Levitsky & Daniel Ziblatt. As vezes leio o livro em inglês e depois em português. Está na minha lista, “At the existentialist café” e também “Ulysses”/Jayme Joyce (já iniciei a leitura inúmeras vezes). Tento ler poesia. é difícil. As minhas preferidas são: “Infância”/Carlos Drummond de Andrade, “A mão que afaga é a mesma que apedreja”/Augusto dos Anjos e “Do not go gentle into that good night”/Dylan Thomas. E gosto muito de João Cabral de Mello Neto e Emily Dickinson.
A informação técnica, novas tendências (hot topics), surge em conversas com colegas e parceiros. Também procuro saber o que de novo está acontecendo lendo a NITS (Newsletter of the Information Theory Society) --- que hoje vem sendo substituída pela IEEE BITS --- The Information Theory Magazine}. Recorro também aos anais do ISIT, dos ITW (Information Theory Workshop). Informação mais consolidada encontro nos TIT (Transactions on Information Theory) TComm (Transactions on Communications) e outros periódicos. Sempre dei muita atenção e procuro acompanhar o que está sendo feito no Brasil consultando os anais dos SBrT e a JCIS. Consulto livros canônicos. E continuo comprando livros que uso como referência e por influência de resenhas de livros (Book Reviews). E de tempos em tempos visito os sites de pesquisadores que atuam na minha área de interesse.
Eu saberia melhor aconselhar um jovem doutor que tenha ingressado na carreira acadêmica. Mas arriscaria dizer que o profissional de engenharia bem formado, equipado, portanto, com uma boa base teórica, e que ao longo do curso, tendo vencido os desafios que lhe foram colocados (exercícios, provas, projetos) está seguro de sua capacidade de resolver problemas. Este é o profissional que as Instituições de Ensino Superior procuram formar. Este profissional sabe do potencial que tem de aprender assuntos novos e de resolver os problemas que irá encontrar (sejam eles de manutenção de sistemas, implantação de sistemas, aquisição de sistemas, desenvolvimento etc.) e por isto --- não apenas por isto, mas principalmente por isto --- foi contratado pelo seu empregador. Tudo que deve fazer é dedicar-se com seriedade (se possível apaixonadamente) às tarefas que lhe cabem. Acredito que esta é a postura adequada para perseguir um bom resultado e sentir-se realizado em todos os momentos da carreira.
Vou primeiro tecer comentários sobre Probabilidades, Variáveis Aleatórias e Processos Estocásticos (PVa&PE) e sobre o estudo deste assunto em um curso convencional (professor, giz e quadro negro) ou parecido. Entendo que este é um tema em que não se aprende o “how” sem saber o “why”. Em outras palavras, o quero dizer é que não se aprende/ensina a calcular probabilidades sem que o conceito de probabilidades seja perfeitamente entendido. Para ilustrar esta afirmação cito que, em diversas situações, constatei que alunos que já haviam cursado a disciplina PVa&PE não respondiam satisfatoriamente a pergunta “O que é probabilidade?”. A resposta “Probabilidade é um número”, correta, surgia muitas vezes. A resposta “Probabilidade mede a chance de algo ser observado”, também correta (e mais em linha com a noção proposta por Kolmogorov --- considerado o pai da Teoria Axiomática da Probabilidade --- de medida-de-probabilidade) era menos frequente.
A dica maior para suavizar o caminho do aprendizado é procurar entender os conceitos fundamentais. O que é probabilidade? Sim, probabilidade é um número (um número pertencente ao intervalo [0, 1]) mas também é uma medida (medida-de-probabilidade) e a palavra probabilidade remete também a “uma teoria”: a Teoria da Probabilidade. Outra pergunta: O que é variável aleatória? A resposta a perguntas básicas como estas têm que ser precisas, bem entendidas. Outra dica importante é: entenda a notação usada. Entender a notação é entender as sentenças matemáticas (a linguagem usada para discorrer sobre qualquer teoria).
O segundo tópico é Teoria da Informação. Basicamente a Teoria da Informação é uma disciplina que estabelece limitantes para o problema da comunicação de informação gerada por um usuário geograficamente situado em um ponto para um destinatário situado em um outro ponto. Um pequeno conhecimento sobre o funcionamento de um Sistema de Comunicações Digitais e uma pequena base em PVa&PE são suficientes para iniciar o estudo de Teoria da Informação. Grande parte da dificuldade em entender os conceitos de Teoria da Informação está também entender a notação. O claro entendimento dos conceitos básicos (medidas de informação: entropia, informação mútua média e capacidade de canal) aliado a um pequeno (pequeno, mas sólido) “background” em PVa&PE torna o aprendizado mais amigável.
Esta é uma pergunta difícil de responder. Muitas respostas à pergunta, aparentemente mais fácil, “Quais áreas irão morrer?”, tem sido negadas. Tome como exemplo algumas afirmações recorrentes. A que disse “A área de códigos está morta.” viu o aparecimento de técnicas novas como LDPC e Códigos Polarizado. A pergunta “Is the PHY Layer Dead?” foi calada com o surgimento do `MIMO Massivo” (já, atualmente, incorporado pela tecnologia 5G).
Particularmente acredito que um breakthrough pode surgir quando/se a tentativa de unificar “wireless communication theory” e a teoria eletromagnética acontecer (o encontro entre Shannon e Maxwell). O livro que estou lendo (e terei que reler) `Wave Theory of Information” de Massimo Franceschetti (Cambridge University Press 2018) trata deste assunto.
Afora estes exemplos o que o futuro espera de todos nós é que façamos bom uso das muitas tecnologias que temos a nossa disposição (aparentemente há mais tecnologia do que necessitamos). Bom uso neste caso é sinônimo de soluções inovadoras.
Enquanto a demanda por empreendedorismo parece crescente, o número de empregos formais (carteira assinada etc.) parece estar escasseando. Conhecer bem as tecnologias atuais (e nunca parar de aprender), estar preparado para inovar e empreender parece ser o caminho a ser seguido.
Poderia ter comentado anteriormente, mas aproveito esta pergunta para dar destaque, com entusiasmo, à nossa revista Journal of Communication and Information Systems (JCIS). Considero que o espaço para que a comunidade possa divulgar o que está fazendo publicando seus resultados via JCIS é hoje muito mais importante e efetivo que no passado. Importante e efetivo por ter um amplo alcance. Sua importância é maior, obviamente, na comunidade brasileira, mas sua visibilidade atinge leitores espalhados por todo o mundo. Esta visibilidade pode ser ainda realçada quando o artigo na publicado na JCIS vem a ser disponibilizado em redes como ResearchGate, Academia etc. No passado as agências de fomento valorizavam (pontuavam) artigos publicados nas Revistas Científicas das Sociedade Científicas Brasileiras. Esta valorização deveria ser revigorada. A vitalidade da pesquisa observada apenas considerando os trabalhos publicados em revistas de ampla circulação internacional é uma observação incompleta. A observação da publicação em revistas de Sociedades Científicas também demonstra, sem dúvida, esta vitalidade. Considere, por exemplo, a JCIS: durante o ano de 2021 um total de 20 trabalhos (entre artigos, letter e tutoriais) foram publicados.
Por pesquisadores das seguintes instituições: UFPB, UFC, UFJF, UFPA, UNICAMP, USP, INATEL, UTFPR, UFRN, PUC-Rio, UFRJ SIDIA(Samsung), UFSC. Em 2022 outras instituições se juntam a estas (UFF, ITA, UFS). Estas são instituições onde a pesquisa e ensino estão plenamente ativos. E são estas as instituições nas quais os cientistas aspirantes tentarão ingressar. E por conseguinte as instituições onde os futuros engenheiros querem ingressar.
Certamente pesquisadores das citadas instituições publicam seus resultados de pesquisa em periódicos internacionais, mas o “retrato” que produzirão não deve diferir muito. E são estes “retratos” que influenciam o fluxo de recursos oriundo das instituições de fomento.
Acho que a valorização da publicação de resultados de pesquisa em revistas de sociedades científicas brasileiras deveria ser cada vez mais valorizado. Hoje a divulgação destes resultados não é menos pública porque foram publicados em periódicos nacionais. E nem menos visíveis. O valor das publicações em veículos nacionais, tanto por quem produz os resultados, quanto por quem avalia/fomenta o desempenho dos centros de pesquisa não deveria ser menor.
Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Rua Marquês de São Vicente, 225 — Rio de Janeiro, RJ.